Há caminhos que escolhemos. Há caminhos que perdemos. E há caminhos que, somente muitos anos depois, descobrimos que Deus também estava usando.
Já estive em 13 países. Conheci culturas diferentes, atravessei fronteiras, preguei, ensinei, servi pessoas e testemunhei realidades que jamais teria conhecido se tivesse permanecido sempre no mesmo lugar. Entretanto, quando olho para trás, existe uma pergunta que volta algumas vezes à minha memória: o que teria acontecido se, em 1998, eu tivesse permanecido no Canadá, em Montreal, pelos quatro anos que deveria ter ficado?
Talvez eu tivesse aprendido francês fluentemente.
Talvez minha trajetória profissional tivesse tomado outra direção.
Talvez eu tivesse desenvolvido competências que hoje fariam parte da minha vocação de uma maneira completamente diferente.
Talvez eu tivesse conhecido pessoas que mudariam minha história.
Talvez eu tivesse permanecido naquele país e construído uma vida que, olhando de hoje, pareceria extraordinária.
Mas existe uma palavra que precisamos aprender quando olhamos para as estradas que não percorremos: talvez.
O problema é que o coração humano transforma o “talvez” em uma espécie de tribunal contra o passado.
“Eu deveria ter ficado.”
“Eu deveria ter escolhido aquilo.”
“Eu deveria ter percebido antes.”
“Eu deveria ter feito diferente.”
E, pouco a pouco, começamos a imaginar que existe uma única linha perfeita da vontade de Deus e que, em algum momento da nossa história, nós a perdemos para sempre.
Mas a Bíblia apresenta um Deus muito maior do que isso. Deus não trabalha apenas com o caminho que escolhemos. José provavelmente não teria escolhido a cisterna. Muito menos a escravidão. Certamente não teria escolhido a injustiça da casa de Potifar. E dificilmente teria escolhido a prisão.
Entretanto, olhando para trás, ele pôde dizer aos seus irmãos: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem.” Gênesis 50:20
Observe a profundidade disso.
José não chamou o mal de bem.
Ele não disse que a traição dos irmãos era necessária para que Deus fosse Deus.
Ele não romantizou a dor.
Ele simplesmente reconheceu que Deus é capaz de entrar em uma história quebrada e produzir algo que os seus autores jamais imaginaram.
Talvez essa seja uma das maiores revelações para quem olha para trás e se pergunta: “E se eu tivesse feito diferente?”
Nós não temos como voltar a 1998.
Não podemos experimentar a vida que teria acontecido em Montreal.
Não podemos saber quem teríamos sido se tivéssemos aprendido francês, permanecido quatro anos no Canadá ou seguido outra direção profissional.
E talvez nem seja necessário saber.
Porque existe uma coisa que sabemos: Deus ainda está trabalhando com a história que temos.
Montreal ficou para trás, mas a história não terminou. Às vezes pensamos que uma porta que fechamos representa uma oportunidade que morreu. Mas a Bíblia está cheia de pessoas cuja história parecia ter terminado justamente quando Deus estava preparando o próximo capítulo.
Abraão saiu de Ur sem saber exatamente para onde iria. “Vá para a terra que eu lhe mostrarei.” Gênesis 12:1
Ele recebeu o destino antes de receber o mapa.
Moisés passou quarenta anos no deserto antes de descobrir que aqueles anos aparentemente improdutivos estavam formando o homem que conduziria Israel. Davi foi ungido rei e depois voltou para cuidar de ovelhas. Paulo desejava pregar em determinados lugares, mas o próprio Espírito Santo redirecionou seus passos (Atos 16:6-10).
Isso é extraordinário: até mesmo os homens que estavam no centro da vontade de Deus não receberam um mapa completo do futuro.
Receberam direção suficiente para o próximo passo.
Talvez seja isso que Deus esteja fazendo comigo agora.
Não sei exatamente para onde Ele está me levando.
E talvez eu esteja tentando exigir de Deus uma informação que Ele nunca prometeu me dar: o mapa completo. Talvez Ele esteja me oferecendo apenas a próxima direção. A estrada não percorrida
Existe uma obra clássica de Robert Frost chamada “The Road Not Taken” — “A Estrada Não Escolhida”.
O poema apresenta alguém diante de duas estradas em uma floresta. Ele precisa escolher uma delas sabendo que não poderá experimentar plenamente as duas.
Essa imagem é profundamente humana. Todos nós carregamos estradas não percorridas. Uma profissão que não seguimos. Uma cidade onde não permanecemos. Uma oportunidade que deixamos passar. Uma pessoa que não conhecemos. Uma decisão que tomamos. Uma decisão que não tomamos. E existe algo particularmente perigoso nessas estradas: nossa imaginação tende a romantizá-las.
A estrada que não percorremos parece perfeita porque nunca tivemos que enfrentar seus problemas.
Talvez Montreal tivesse sido extraordinário.
Mas talvez também tivesse produzido dificuldades que hoje desconheço.
Talvez eu tivesse aprendido francês.
Mas talvez tivesse perdido experiências que foram fundamentais para a pessoa que me tornei.
Talvez minha vocação tivesse seguido outro caminho.
Mas talvez esse outro caminho não tivesse produzido aquilo que Deus queria produzir através da minha vida. Não sabemos. E é exatamente por isso que precisamos parar de transformar possibilidades em arrependimentos. Há coisas que só podem ser compreendidas olhando para trás.
A vida de Rute é um dos exemplos mais belos. Ela perdeu o marido. Ficou viúva. Poderia ter retornado para sua antiga realidade. Mas decidiu acompanhar Noemi. E chegou a Belém sem saber que sua história estaria ligada à linhagem de Davi e, posteriormente, à genealogia de Jesus.
Rute não conhecia o capítulo 4 quando estava vivendo o capítulo 1.
Ela só tinha uma decisão diante dela: continuar caminhando.
Talvez essa seja a palavra para esta estação da minha vida: continue caminhando.
Não preciso saber exatamente onde estarei daqui a dez anos.
Não preciso entender todas as conexões entre os 13 países que visitei.
Não preciso compreender completamente por que determinadas portas abriram e outras fecharam.
Preciso apenas reconhecer que minha história não está nas mãos do acaso.
E se até aquilo que considero perda tiver se tornado preparação?
Existe uma frase de C. S. Lewis, em As Crônicas de Nárnia, que se tornou uma das imagens mais poderosas da literatura cristã: “Aslan está a caminho.”
Em Nárnia, os personagens frequentemente não conseguem compreender o que está acontecendo enquanto vivem os acontecimentos. O que parece ausência pode ser presença. O que parece derrota pode estar preparando uma vitória. O que parece fim pode ser apenas uma transição.
Essa é uma das grandes tensões da fé: Deus pode estar trabalhando precisamente onde eu não consigo enxergar. Talvez eu tenha perdido algumas oportunidades. Talvez tenha tomado decisões que hoje tomaria de maneira diferente. Talvez pudesse ter aproveitado melhor determinados períodos. Talvez pudesse ter desenvolvido habilidades que hoje fariam diferença. Mas não quero passar o resto da vida tentando reconstruir uma versão imaginária de mim mesmo.
Quero descobrir o que Deus ainda pode fazer com o homem que existe hoje. A glória não depende de uma história perfeita. Essa talvez seja a parte mais importante.
Se Deus só pudesse ser glorificado por meio de pessoas que nunca erraram, nunca perderam oportunidades e nunca escolheram caminhos equivocados, praticamente ninguém poderia glorificá-Lo.
Mas a Bíblia está cheia de histórias imperfeitas.
Pedro negou Jesus.
Davi pecou.
Moisés hesitou.
Jonas fugiu.
Tomé duvidou.
Paulo carregava um passado que não poderia apagar. E, ainda assim, Deus escreveu propósito sobre histórias que tinham marcas. Isso significa que minha maior esperança não está no que eu poderia ter sido, mas no que Deus ainda pode fazer com quem eu sou. Talvez eu não tenha ficado quatro anos em Montreal. Mas Deus me levou a outros lugares. Já estive em 13 países. Conheci povos. Atravessei culturas. Servi pessoas. Preguei o Evangelho. Ensinei. Escrevi. Acompanhei histórias. E ainda não sei qual será o próximo capítulo.
Mas talvez essa seja justamente a posição correta do homem diante de Deus: não ter todas as respostas e continuar obedecendo.
A providência de Deus não é uma desculpa para a passividade. Isso não significa dizer: “Tudo vai acontecer, então não preciso fazer nada.” Pelo contrário.
Paulo diz: “Esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo.” Filipenses 3:13-14
Paulo não ficou paralisado analisando tudo que poderia ter sido. Ele transformou o passado em aprendizado e o futuro em direção. Essa precisa ser minha postura. Não posso voltar para Montreal. Mas posso aprender francês agora, se isso fizer sentido. Não posso recuperar oportunidades perdidas. Mas posso aproveitar as oportunidades presentes.
Não posso alterar as decisões de 1998. Mas posso tomar decisões melhores em 2026. O passado pode explicar parte da minha trajetória, mas não precisa determinar o meu próximo passo. Talvez exista algo de bom esperando para ser transformado em glória.
Hoje eu não sei exatamente para onde Deus está me levando.
E, sinceramente, talvez eu não precise saber.
Existe algo dentro de mim que acredita que ainda há coisas que podem ser transformadas em glória.
Experiências.
Erros.
Viagens.
Relacionamentos.
Conhecimentos.
Portas abertas.
Portas fechadas.
Anos que parecem ter sido desperdiçados.
Sonhos que mudaram. Até mesmo aquilo que considero uma oportunidade perdida. Porque Deus tem uma especialidade que atravessa toda a Escritura: Ele redime.
Ele transforma água em vinho.
Transforma deserto em caminho.
Transforma escravo em governador.
Transforma cruz em ressurreição.
Transforma sepulcro em testemunho.
E transforma histórias humanas em instrumentos da Sua glória.
Por isso, talvez a pergunta mais madura não seja: “O que teria acontecido se eu tivesse ficado em Montreal?”
Talvez seja: “O que Deus pode fazer agora com tudo aquilo que aconteceu depois que eu saí de Montreal?”
Essa pergunta muda tudo.
Porque a primeira me prende ao passado.
A segunda me devolve ao propósito.
E existe uma esperança ainda maior: se Deus foi fiel quando eu não entendia o caminho, posso confiar Nele agora que também não entendo o próximo.
Eu não sei qual será o próximo país.
Não sei qual será o próximo projeto.
Não sei qual será a próxima porta.
Não sei exatamente como minha vocação continuará se desenvolvendo.
Mas sei quem conduz a história.
E talvez seja suficiente.
Porque, no fim, não quero uma vida que prove que fiz todas as escolhas certas.
Quero uma vida que, olhando para trás, possa dizer: “Apesar das minhas escolhas, apesar dos meus limites, apesar das estradas que não percorri, Deus esteve aqui.”
E talvez essa seja a verdadeira inscrição sobre a minha história: O Senhor está ali.
Não apenas no lugar para onde eu fui. Mas também no caminho que não entendi. Na porta que fechei. Na oportunidade que perdi. Nos 13 países que conheci. Naquilo que ainda não compreendo. E, sobretudo, na estrada que ainda estou percorrendo.
Deus vos abençoe
Leonardo Lima Ribeiro
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Se eu olhar pra trás com minha natureza carnal, com certeza vou dizer; fiz tudo errado, perdi muito dinheiro, perdi muito tempo tentando reconquistar o que perdi. Após muitos anos de conversão, um dia pensando em tudo que aconteceu comigo, fui perguntar a Deus pq eu tive que passar tudo aquilo. Antes de formular a pergunta, qdo apenas eu disse pq, ouvi nitidamente a voz do Espírito Santo pela primeira vez em todo tempo de conversão, me dizer: FOI NECESSÁRIO. Então pastor, tudo o que aconteceu com vc, foi necessário.
ResponderExcluirAmen
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