sexta-feira, 24 de abril de 2026

Quem, como e até quando eu devo apascentar?

 


Zacarias 11 é um dos textos mais duros sobre liderança espiritual. Ele não é um manual simplista de “quem vale a pena e quem não vale”, mas revela o coração de um pastor fiel diante de um povo que, em grande parte, rejeita o cuidado.

Se a gente for direto ao ponto: o texto não te autoriza a desprezar pessoas — mas te ensina a discernir onde investir sua vida quando há resistência contínua ao cuidado.

Vamos aprofundar com o hebraico e o fluxo do capítulo.

1. O cenário: um rebanho destinado à destruição.

“Apascenta as ovelhas destinadas à matança...” (זZacarias 11:4)

A expressão hebraica é: “צֹאן הַהֲרֵגָה” (tson ha-haregáh) = ovelhas da matança / destinadas ao abate

Isso descreve um povo vulnerável, explorado, sem direção — mas também inserido em um ciclo de rejeição ao cuidado verdadeiro.

2. O problema não são só os líderes — são também as ovelhas

“Aqueles que as compram as matam e não são culpados...” (v.5)

Aqui vemos líderes corruptos. Mas o texto vai além: mostra um povo que se acostumou com esse sistema. 

Ou seja: não é só falta de pastor, é também resistência à verdadeira pastoreio

3. Dois cajados: o que Deus oferece

Zacarias recebe dois cajados: “נֹעַם” (No‘am) = graça, favor, deleite e “חֹבְלִים” (Chovlim) = união, vínculo, laço

Isso é profundo: Deus oferece graça e relacionamento/restauração. Mas o povo rejeita ambos.

4. O ponto-chave: “minha alma se impacientou com eles”

“Minha alma se cansou deles…” (v.8)

No hebraico: “וַתִּקְצַר נַפְשִׁי בָּהֶם” (vatiktsar nafshi bahem) = minha alma encurtou com eles / se tornou impaciente / se esgotou

Isso não é falta de amor. É limite emocional e espiritual diante de rejeição contínua.

E o texto continua: “...e também a alma deles se cansou de mim.”

Ou seja, é uma rejeição mútua.

5. O momento mais forte: Deus para de insistir

“Não vos apascentarei mais...” (v.9) Isso é pesado.

Mas observe o motivo: não foi por fraqueza do pastor, foi por recusa persistente das ovelhas.

6. O desprezo pelo valor do pastor

“Pesaram o meu salário: trinta moedas de prata...” (v.12)

No hebraico: “שְׁלֹשִׁים כֶּסֶף” (sheloshim kesef) = valor de um escravo

Isso revela algo profundo: o povo desvalorizou completamente o cuidado recebido.

No contexto direto, o profeta está representando um pastor rejeitado pelo povo.

Quando ele pede seu salário, o povo responde com: “שְׁלֹשִׁים כֶּסֶף” (sheloshim kesef) = trinta moedas de prata

Esse valor, no Antigo Testamento, corresponde ao preço de um escravo (Êxodo 21:32).

Ou seja: não é apenas pagamento, é desprezo institucionalizado

O povo está dizendo, na prática: “É isso que você vale.”

Isso é profético e aponta para Jesus, que foi vendido a preço de escravo (30 moedas)*

*O capítulo 11 de Livro de Zacarias apresenta uma cena profética forte: Deus levanta um pastor para cuidar do povo, mas esse povo rejeita sua liderança. O próprio Deus, simbolicamente, assume o papel de pastor, mas encontra resistência, ingratidão e desprezo. Em resposta, Ele decide romper a aliança e entregar o povo às consequências de sua rejeição.

Dentro desse contexto, surge um momento marcante: o pastor pede seu salário, e o povo avalia seu valor em trinta moedas de prata — o preço de um escravo (Êxodo 21:32). Esse valor não é apenas baixo; é uma afronta. É como dizer: “é isso que você vale para nós”. Deus então ordena que esse valor seja lançado ao oleiro na casa do Senhor, simbolizando rejeição e desprezo institucionalizado.

Essa cena aponta diretamente para Evangelho de Mateus 26–27, onde Jesus Cristo é traído por Judas Iscariotes exatamente por trinta moedas de prata. Assim como em Zacarias, o valor pago revela o quanto o Messias foi desprezado por aqueles que deveriam reconhecê-lo. Depois, Judas, tomado de remorso, devolve o dinheiro, e ele é usado para comprar o campo do oleiro — cumprindo de forma impressionante o simbolismo profético.

Narrativamente, a conexão é clara: em Zacarias, Deus é rejeitado como pastor e avaliado com preço de escravo; nos evangelhos, Jesus — o Bom Pastor — é rejeitado, traído e “avaliado” da mesma forma. O que era uma encenação profética se torna realidade histórica. O povo que rejeitou o cuidado de Deus agora rejeita o próprio Deus encarnado.

Assim, Zacarias 11 não é apenas uma crítica ao povo da época, mas uma antecipação profunda do desprezo que o Messias sofreria — mostrando que a rejeição a Deus sempre culmina na desvalorização daquilo que vem dEle.

7. Então, quem você deve apascentar?

O texto não lista perfis diretamente, mas revela princípios claros.

Invista em quem:

A. Responde ao cuidado: não perfeitamente, mas com abertura. Pessoas ensináveis

B. Valoriza o que recebe: não trata o cuidado como obrigação, reconhece o que está sendo feito

C. Permite relacionamento (Chovlim): não apenas recebe ensino, mas se conecta, se vincula

D. Honra a graça (No‘am): não despreza o favor, não banaliza o acesso

8. E quem você precisa aprender a deixar?

Aqui está o ponto sensível — e bíblico.

Perfis que o texto sugere não insistir indefinidamente:

A. Quem rejeita continuamente o cuidado: ouve, mas não recebe, permanece fechado

B. Quem desvaloriza o que é oferecido: trata como comum, nunca reconhece

C. Quem se relaciona apenas por interesse: não quer vínculo, só benefício

D. Quem se cansa de você (e demonstra isso) resistência constante, desconexão emocional

Lembre: “a alma deles se cansou de mim”

9. Um cuidado importante (para não distorcer o texto)

Isso NÃO significa: abandonar pessoas difíceis rapidamente, selecionar apenas quem “dá retorno”, pastorear só quem é conveniente

O ponto é outro: não insistir onde há rejeição consciente e contínua ao cuidado verdadeiro.

O pastoreio continua sendo um trabalho espiritual real, com entrega, ensino, cuidado e responsabilidade. Em Carta aos Gálatas 6:6, Paulo diz que aquele que é instruído deve compartilhar seus bens com quem o ensina — ou seja, existe um princípio de honra prática ao labor ministerial.

Mas Zacarias 11 nos confronta em outro nível: não é apenas sobre dar ou não dar algo ao pastor, e sim sobre como o coração responde ao cuidado espiritual.

Narrativamente, podemos entender assim: Há líderes que se dedicam, cuidam, ensinam, aconselham… mas encontram pessoas que recebem tudo isso e, ainda assim, respondem com indiferença, crítica constante ou ingratidão. Não é uma questão financeira apenas — é uma questão de valor percebido. O mesmo espírito que, em Zacarias, avaliou o pastor em “preço de escravo”, hoje se manifesta quando o cuidado espiritual é tratado como algo comum, descartável ou sem honra.

Por outro lado, também existe um alerta importante: o texto não legitima líderes que mercantilizam o ministério ou medem tudo por dinheiro. O próprio Novo Testamento equilibra isso, mostrando que o ministério não é comércio, mas também não deve ser desprezado.

Então a conexão saudável é essa: O povo de Deus é chamado a reconhecer, honrar e valorizar o cuidado espiritual que recebe. E os líderes são chamados a pastorear com integridade, não buscando preço, mas permanecendo fiéis, mesmo quando não são valorizados.

No fim, Zacarias 11 revela algo mais profundo que dinheiro: quando o coração não discerne o valor do que Deus está fazendo, ele sempre vai tratar o que é valioso como algo comum.

10. Síntese profunda

Zacarias 11 mostra que: existe graça disponível, existe vínculo sendo oferecido, existe cuidado genuíno.

Mas também mostra que: há um ponto onde insistir se torna desperdício espiritual e emocional.

A pergunta não é: “Quem merece ser cuidado?”

Mas: “Quem está disposto a receber o cuidado?”

Porque o verdadeiro pastoreio não acontece só por entrega de um lado. Ele exige resposta do outro.

1. A avareza como cegueira espiritual, não só financeira

Quando falamos de avareza aqui, não é apenas dinheiro.

É uma postura interna: recebe, mas não reconhece, usufrui, mas não valoriza, é servido, mas não honra, se beneficia, mas não se compromete.

Isso é um tipo de retenção do coração.

Em Zacarias 11 isso aparece quando o povo “paga” o pastor com: “שְׁלֹשִׁים כֶּסֶף” (sheloshim kesef) =(trinta moedas de prata)

Não é só um valor baixo. É um ato simbólico de desprezo.

Ou seja: não é falta de capacidade — é falta de valor atribuído. 

2. O problema não é o pouco — é a postura

Existe gente que tem pouco e é profundamente grata.

E existe gente que recebe muito e continua: crítica, indiferente, fechada, nunca satisfeita

A avareza espiritual não diz: “Eu não tenho”

Ela diz: “Nada do que recebo é suficiente para gerar honra.”

3. Até onde ir com quem não reconhece?

Essa é a pergunta mais importante — e mais delicada. Zacarias 11 mostra que existe um limite.

Não um limite de amor. Mas um limite de insistência.

Quando a pessoa: recebe constantemente, não responde com abertura, não demonstra transformação, não valoriza o cuidado, continuar investindo da mesma forma pode gerar três distorções:

1. desgaste do pastor: “minha alma se cansou...” (וַתִּקְצַר נַפְשִׁי)

2. banalização do cuidado: o que é precioso passa a ser tratado como comum

3. reforço da avareza: a pessoa continua recebendo sem nunca ser confrontada

4. O erro de continuar sem discernimento

Muitos líderes continuam dando: tempo, energia, atenção para pessoas que nunca respondem.

E fazem isso por: culpa, medo de parecer duro, necessidade de ser aceito, falsa ideia de amor

Mas isso não é amor maduro. Isso é falta de direção.

5. O que fazer então? 

O texto de Zacarias não ensina abandono impulsivo.

Ele aponta para um processo.

A. Continue servindo — mas com verdade. Não mude seu coração, mas ajuste sua expectativa.

B. Confronte a postura (quando necessário). A avareza precisa ser exposta, não alimentada.

C. Observe a resposta. Quem é ensinável reage, mesmo que lentamente. Quem não é… permanece igual.

D. Redirecione sua energia: Você não precisa investir na mesma intensidade em todos. Isso não é rejeição. É mordomia espiritual.

6. Um princípio profundo.

Graça não é ausência de limite. 

Se você continua oferecendo tudo para quem nunca valoriza: você se esgota, a pessoa não cresce, o relacionamento se distorce

7. Sinal claro de que você está indo longe demais

Quando você começa a sentir: peso constante ao servir aquela pessoa, frustração repetitiva sem mudança, sensação de estar sendo usado, ausência total de reciprocidade, isso indica que o modelo precisa mudar.

8. Síntese (ligando com Zacarias 11)

O povo: recebeu cuidado, teve acesso à graça (No‘am), teve oportunidade de vínculo (Chovlim)

Mas respondeu com: desprezo, desvalorização, fechamento. E Deus, através do profeta, parou de insistir da mesma forma.

A questão não é: “Devo parar de amar?”

Mas: “Devo continuar investindo da mesma forma em quem não reconhece nem responde?”

Zacarias 11 sugere que não.

Porque existe um ponto onde insistir deixa de ser fidelidade e passa a ser desperdício.

Ele tomou em mãos os dois cajados — um chamado Graça, outro União — e entrou no meio do rebanho destinado ao abate. Havia dor, havia confusão, mas também havia oportunidade de cuidado. Ele apascentava, corrigia, conduzia… porém, com o tempo, percebeu algo mais profundo: não era apenas falta de direção, era rejeição ao próprio pastoreio. Recebiam, mas não respondiam. Eram cuidados, mas não valorizavam. E, pouco a pouco, sua alma foi se encurtando dentro dele, cansada de insistir onde não havia abertura. Quando pediu que avaliassem seu trabalho, pesaram seu valor como o de um escravo — trinta moedas, lançadas com indiferença. Não era o preço que doía, era o coração por trás dele. Então ele quebrou os cajados. Não por falta de amor, mas porque não havia mais comunhão possível. Ali ele entendeu: onde a graça é desprezada e o vínculo rejeitado, o cuidado deixa de gerar vida. E insistir além desse ponto não é fidelidade — é ignorar o que o próprio coração já discerniu.

Que o Espírito Santo ilumine vossos corações 

Leonardo Lima Ribeiro 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Servir o mais pobre é sinal de humildade?



1. A falsa humildade e o ego disfarçado

Quando alguém tem mais dinheiro, status ou influência, ser “humilde” com quem está abaixo pode, na prática, alimentar o próprio ego.

Existe um tipo de postura que parece humildade, mas funciona assim: “Olha como eu sou simples mesmo tendo tanto.”

Isso gera uma sensação interna de superioridade moral. A pessoa não está se diminuindo — ela está, na verdade, se exaltando de forma mais sofisticada.

Ou seja, não é humildade… é vaidade refinada.

2. Zona de conforto emocional

Ser humilde com quem tem menos não ameaça sua identidade. Você continua no controle. Não há comparação que te diminua. Não existe risco de rejeição ou inferiorização. 

Agora, quando você está diante de alguém com mais status, dinheiro ou influência: Surge comparação. Pode aparecer insegurança. Existe o medo de não ser suficiente. 

Aí a humildade deixa de ser confortável — e passa a confrontar o ego.

3. Comparação social (um fator psicológico central)

O ser humano se mede o tempo todo, mesmo sem perceber.

Diante de alguém “menor”: Você se sente validado. Sua identidade é reforçada. 

Diante de alguém “maior”: Sua identidade é questionada. Surge a necessidade de se afirmar. 

É aí que muitas pessoas: competem, se fecham, ou tentam provar valor.

E isso é o oposto da humildade.

4. Orgulho oculto

Existe um tipo de orgulho que não aparece de forma arrogante — ele aparece como resistência interna.

Por exemplo: dificuldade em ouvir alguém mais “bem-sucedido”, necessidade de mostrar que também sabe, incômodo em se submeter, aprender ou reconhecer superioridade em algo.

Esse orgulho é mais perigoso porque é silencioso.

5. Humildade verdadeira envolve identidade segura

A verdadeira humildade não depende de quem está na sua frente.

Ela nasce de uma identidade firme — não baseada em: dinheiro, posição, reconhecimento.

Mas em algo mais profundo.

Por isso, uma pessoa verdadeiramente humilde consegue: honrar quem está acima sem se sentir diminuída, tratar quem está abaixo sem se sentir superior. Ela não entra no jogo da comparação.

6. Dimensão espiritual

No contexto cristão, isso fica ainda mais claro.

A humildade verdadeira não é: pensar menos de si, nem se rebaixar artificialmente

Mas é: não viver centrado em si mesmo. O problema é que o ego gosta de hierarquia.

Ele quer sempre: estar acima de alguém ou não estar abaixo de ninguém

Por isso, ser humilde com quem “tem menos” pode alimentar o ego. Mas ser humilde com quem “tem mais” exige morte do ego. 

7. Por que é mais difícil com quem tem mais?

Porque envolve: confronto com inseguranças, ameaça ao senso de valor próprio, quebra da necessidade de comparação, rendição do orgulho.

Ou seja, exige uma humildade real — não performática.

8. Um teste prático de humildade

Se quiser medir isso na prática, observe:

Você consegue aprender com alguém mais bem-sucedido sem se sentir menor?

Consegue celebrar alguém que está à frente de você sem se comparar?

Consegue ouvir sem precisar se provar?

Esses são indicadores mais reais de humildade do que “ser simples com quem tem menos”.

A humildade seletiva: quando é fácil descer e difícil subir

Há uma forma de humildade que, à primeira vista, parece bela.

É a imagem da pessoa bem-sucedida que trata com gentileza quem tem menos recursos, menos influência, menos voz. Ela sorri, acolhe, demonstra simplicidade, senta-se à mesa com os “pequenos”, fala com doçura e parece provar que o status não a corrompeu.

Mas a grande pergunta não é como ela se comporta diante de quem está abaixo.

A verdadeira pergunta é: como ela se comporta diante de quem está acima?

É nesse ponto que a alma é revelada. Porque descer pode ser confortável. O difícil, muitas vezes, é subir sem competir.

A humildade diante dos “menores” pode ser mais fácil porque não ameaça o ego. Do ponto de vista psicológico, o ser humano organiza grande parte de sua identidade por meio da comparação social.

A psicologia social descreve isso como um processo quase automático: nós nos avaliamos em relação ao outro. Quando estamos diante de alguém em condição financeira, intelectual ou social inferior, a estrutura interna do ego tende a permanecer segura.

Não há ameaça.

Ao contrário, existe reforço. O outro, inconscientemente, confirma nossa posição. Nesse contexto, ser gentil pode até ser sincero — mas também pode ser emocionalmente fácil. A humildade, nesse caso, não exige renúncia profunda.

Ela não fere a autoimagem. Em alguns casos, ela até a fortalece. 

A pessoa pode pensar, mesmo sem perceber: “Eu tenho muito, mas veja como continuo simples.”

Aqui nasce uma forma sofisticada de vaidade. Não a vaidade ostensiva, mas a vaidade moral. A pessoa não se orgulha apenas do que possui. Ela passa a se orgulhar da própria humildade. 

Esse é um dos paradoxos mais profundos da alma humana: o ego consegue usar até a humildade para se alimentar.

A verdadeira dificuldade surge diante de quem tem mais. Agora imagine o cenário oposto. Você entra em uma sala e encontra alguém com mais influência, mais dinheiro, mais reconhecimento, mais conhecimento, mais autoridade.

Subitamente algo se move dentro de você. Talvez seja um leve desconforto. Talvez uma necessidade de se posicionar. Talvez a vontade de provar valor. Talvez uma comparação silenciosa. 

A ciência chama isso de ameaça ao autoconceito.

Quando encontramos alguém que parece ocupar um lugar acima do nosso, nossa identidade é convocada ao confronto.

Não é mais uma relação horizontal. O ego se sente exposto. É aí que a humildade deixa de ser performance e se torna prova.

Porque, nesse ambiente, ser humilde significa: ouvir sem competir, aprender sem se sentir diminuído, honrar sem bajular, reconhecer grandeza sem sentir inveja

E isso é extremamente difícil. A dificuldade não está no gesto externo. Está na estrutura interna. A ciência da comparação e da autopreservação. 

A neurociência e a psicologia cognitiva mostram que o cérebro humano é altamente sensível à hierarquia social.

Nossa mente lê sinais de status o tempo inteiro: aparência, linguagem, influência, posição, recursos

Esses sinais ativam processos emocionais ligados à autoestima e pertencimento.

Em termos simples: 

o cérebro pergunta silenciosamente: “Onde eu me encaixo aqui?”

Quando a resposta parece ser “abaixo”, surgem mecanismos defensivos.

Por exemplo: autovalorização exagerada, desqualificação do outro, necessidade de autopromoção, retraimento social, falsa indiferença. Quantas vezes alguém, ao encontrar uma pessoa de maior influência, tenta imediatamente falar das próprias conquistas?

Isso nem sempre é arrogância consciente.

Às vezes é autoproteção psíquica. O ego está tentando sobreviver. A fé entra onde a psicologia para

A ciência explica o mecanismo. A fé revela a raiz.

A psicologia mostra a comparação. A fé mostra o coração. 

Biblicamente, o problema central não é apenas insegurança.

É o orgulho. O orgulho não é somente sentir-se superior. Às vezes ele aparece justamente na incapacidade de se sentir menor sem colapsar.

O orgulho diz: “Meu valor depende da minha posição.”

Por isso, quando alguém encontra uma pessoa “maior”, sente-se ameaçado. Mas a fé cristã propõe uma identidade que não nasce da comparação. Ela nasce do pertencimento. O valor não está no status. Está em quem a pessoa é diante de Deus. Quando a identidade está enraizada nisso, a presença de alguém mais influente não diminui o ser. Porque o valor já não depende da hierarquia humana. 

A falsa humildade como mecanismo espiritual e psicológico

Existe uma humildade que é, na verdade, controle.

A pessoa trata bem quem está abaixo porque isso preserva a narrativa interna de superioridade benevolente. Ela gosta de ser vista como acessível. Como simples. Como alguém “sem orgulho”.

Mas diante de alguém maior, surge tensão. Isso revela que a humildade talvez nunca tenha sido virtude profunda. Talvez fosse apenas uma forma elegante de administrar poder. A verdadeira humildade não é testada quando você pode descer. Ela é testada quando você precisa subir sem rivalizar.

A humildade real nasce de uma identidade não comparativa. 

A síntese entre ciência e fé talvez seja esta: A psicologia mostra que o ego precisa constantemente se localizar na hierarquia. A fé convida o ser humano a transcender essa lógica. 

2 Coríntios 10:12: “...quando se medem consigo mesmos e se comparam consigo mesmos, mostram falta de sabedoria.”

Filipenses 2:3: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando os outros superiores a si mesmos.”

Gálatas 1:10: “Porventura procuro eu agora o favor dos homens ou o de Deus?”

Tiago 4:6: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.”

Mateus 23:12: “Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.”

Humildade real não é pensar menos de si. É não precisar medir seu valor o tempo inteiro. É poder estar diante do rico sem inveja. Diante do sábio sem inferioridade. Diante do simples sem superioridade. É permanecer inteiro em qualquer ambiente. A verdadeira humildade não muda conforme a sala. Ela não depende de quem entrou.

Porque ela não está apoiada na posição relativa, mas na verdade interior.

Talvez o grande teste da humildade não seja como tratamos os “pequenos”.

Isso, às vezes, pode ser fácil.

O grande teste é como o coração reage quando encontra alguém maior do que ele.

Ali aparecem: a vaidade, a comparação, a insegurança, o orgulho, a falsa humildade. E talvez seja justamente nesse confronto que Deus, a vida e a consciência nos convidem à transformação. Porque a humildade verdadeira não é um gesto. É uma libertação do ego.

Mas existe um cenário ainda mais revelador — e talvez mais doloroso.

É quando você está diante de pessoas maiores, serve com sinceridade… e, ainda assim, não é visto.

Você faz. Você ajuda. Você se disponibiliza. Você se doa. Mas, para elas, aquilo não tem peso extraordinário. Não é honra — é apenas esperado. Não é valor — é função. E, às vezes, nem isso.

Às vezes, elas simplesmente não percebem. Não há reconhecimento. Não há prioridade. Não há retorno proporcional. Você não é rejeitado explicitamente — o que, curiosamente, seria mais fácil de lidar. Você apenas… não é considerado.

E é nesse lugar silencioso que o coração é exposto de verdade. Porque ali, sem aplauso, sem validação, sem reciprocidade, surgem perguntas internas que ninguém vê: 

“Será que isso vale a pena?” “Será que eu só sirvo quando é conveniente?” “Por que eu não sou visto como outros são?”

E o mais profundo: “Se ninguém percebe, eu continuo sendo quem eu digo que sou?”

Nesse ambiente, a humildade deixa de ser discurso e se torna confronto. Porque é fácil servir quando há reconhecimento. É fácil se doar quando há retorno. É fácil ser “humilde” quando isso constrói sua imagem. Mas quando suas ações são tratadas como obrigação — quando sua presença não altera a agenda de ninguém — quando você não é priorizado, lembrado ou destacado — o ego perde o alimento.

E é aí que ele reage. Alguns tentam se provar. Outros se retraem. Outros se ofendem em silêncio. Outros começam a servir com peso, já esperando frustração. E alguns… desistem internamente, mesmo continuando externamente. Mas existe um caminho mais profundo. 

É quando você entende que esse tipo de ambiente revela uma verdade essencial: se o seu serviço depende de ser visto, então ele ainda está conectado à necessidade de validação. Isso não é uma condenação — é um diagnóstico. Porque todos nós, em algum nível, queremos ser reconhecidos.

Mas essas situações expõem o quanto ainda precisamos disso para sustentar quem somos.

E, ao mesmo tempo, elas oferecem algo raro: a oportunidade de servir a partir de um lugar mais puro.

Um lugar onde: você não precisa ser notado para continuar sendo fiel, você não precisa ser priorizado para continuar disponível, você não precisa ser reconhecido para continuar íntegro

Não é indiferença. Não é frieza. Não é ausência de desejo por honra legítima. É liberdade. Liberdade de não depender da percepção alheia para sustentar sua identidade. Porque, no fim, o maior teste não é apenas estar diante de alguém maior. É permanecer inteiro quando, diante deles, você se torna invisível.

E ainda assim escolher continuar sendo quem você é — não por eles, mas por aquilo que governa o seu coração.

“Se alguém pode enriquecer servindo ao mercado, por que seria errado alguém ser sustentado servindo às pessoas espiritualmente?”

A dificuldade pode nascer da comparação e do ego. 

Quando um pastor vive bem — especialmente por meio de ofertas — isso toca diretamente na percepção de valor das pessoas.

Inconscientemente, muitos pensam: “Ele está vivendo melhor do que eu”

“Eu trabalho tanto… e ele?” “Por que alguém que ‘serve’ tem esse nível de conforto?”

Aqui entra exatamente o mecanismo que falamos antes: a comparação social.

Se o pastor ocupa um lugar de influência e ainda vive bem financeiramente, isso pode gerar um conflito interno: ameaça ao senso de justiça pessoal, sensação de desigualdade, questionamento do próprio esforço. 

E aí surgem reações como crítica, desconfiança ou resistência. Nem sempre isso é racional. Muitas vezes é emocional. E sim — em alguns casos, há orgulho ferido e dificuldade de lidar com alguém “acima” em duas dimensões ao mesmo tempo: espiritual e material.

Mas existe também motivo legítimo para cautela. Agora vem o outro lado — e ele precisa ser levado a sério. A resistência de muitas pessoas não nasce só de ego. Ela também nasce de histórico real de abusos. 

Ao longo do tempo, houve (e ainda há): líderes que manipulam emocionalmente para receber dinheiro, promessas espirituais condicionadas a ofertas, uso indevido de recursos, ostentação desconectada do evangelho. Isso cria uma memória coletiva. 

Então, quando alguém vê um pastor vivendo bem de ofertas, pode pensar: “Isso é genuíno… ou é exploração disfarçada?”

Ou seja, a desconfiança não é apenas orgulho. Às vezes é proteção.

O conflito espiritual: expectativa vs. realidade

Existe também um imaginário espiritual muito forte: 

A ideia de que quem serve a Deus deve viver: com pouco, de forma simples, quase sem conforto. Qualquer coisa fora disso parece incoerente para algumas pessoas.

Mas essa expectativa não é totalmente bíblica — ela é, muitas vezes, cultural.

Na Bíblia, vemos dois extremos coexistindo: homens de Deus com recursos (como Abraão), e outros vivendo em situações adversas em alguns momentos (como Paulo). 

O problema não é ter ou não ter. É o coração.

Mas o ser humano tende a simplificar: “Se é de Deus, deve ser simples.” E isso gera conflito quando a realidade não encaixa nessa expectativa.

Dinheiro já é um tema delicado por si só. 

Agora, quando você mistura dinheiro com autoridade espiritual, você entra em uma das áreas mais sensíveis que existem. 

Porque: envolve confiança, envolve fé, envolve entrega. Se há qualquer ruído nisso, a reação tende a ser forte.

A reação das pessoas revela duas coisas ao mesmo tempo

Quando alguém tem dificuldade em aceitar um pastor vivendo bem de ofertas, isso pode revelar:

1. Questões internas: comparação, senso de justiça pessoal, dificuldade com autoridade, orgulho ou insegurança

2. Questões externas legítimas: medo de manipulação, experiências negativas anteriores, preocupação com integridade, zelo pela verdade

Ou seja: nem toda crítica é inveja — mas nem toda crítica é pura também.

O ponto mais profundo (onde fé e caráter se encontram)

A pergunta central não deveria ser: “Ele pode viver bem?”

Mas sim: Existe transparência? Existe integridade? Existe coerência entre mensagem e vida? Existe serviço genuíno — ou exploração?

E, do outro lado: Eu estou reagindo com discernimento… ou com comparação? Isso me incomoda por justiça… ou por ferir meu ego?

Enfim, é mais fácil lidar com alguém “acima” quando ele não parece tão acima assim.

Mas quando alguém ocupa um lugar espiritual e ainda prospera financeiramente, isso confronta: o ego, as crenças, e as experiências das pessoas

Por isso a reação é tão intensa.

“Quando a prosperidade valida a mensagem: estamos diante de autoridade ou aparência?”

1. A questão central: autoridade vem de onde?

Na lógica de muitos ambientes hoje, autoridade parece vir de: resultados visíveis, crescimento numérico, influência, prosperidade financeira

Mas, no padrão bíblico, autoridade nasce de outra fonte: caráter, fidelidade, verdade vivida e serviço.

Existe uma diferença enorme entre: autoridade percebida (externa) e autoridade real (interna e espiritual)

2. Quando o dinheiro vira ferramenta de validação

Aqui está o ponto delicado. Alguns líderes, consciente ou inconscientemente, começam a usar prosperidade como evidência de: “Deus está comigo”, “Minha mensagem funciona”, “Tenho algo que você precisa ouvir”

Isso cria uma associação perigosa: sucesso financeiro = legitimidade espiritual

O problema?

Isso pode levar a: distorção da mensagem, pressão por resultados, construção de imagem, comparação entre ministérios

E, no fundo, desloca o centro do chamado.

3. Mas cuidado com o outro extremo

Seria um erro dizer que: “se um pastor prospera, ele está errado” Isso também não é verdadeiro.

A questão não é ter recursos.

A questão é: o dinheiro está servindo ao chamado… ou o chamado está servindo ao dinheiro?

4. O coração do chamado pastoral

O chamado pastoral, em sua essência, não é: ganhar dinheiro, construir status, provar autoridade

É: cuidar de pessoas, ensinar a verdade, formar caráter espiritual e servir

Quando o foco muda, algo se perde — mesmo que externamente pareça sucesso.

5. A tentação sutil

O que torna isso complexo é que raramente começa de forma explícita.

Ninguém diz: “Quero dinheiro para ter autoridade.”

Mas pode evoluir assim: A pessoa começa com um chamado genuíno. Os resultados começam a aparecer. O reconhecimento cresce. A prosperidade vem junto. Isso passa a reforçar a identidade.

E, aos poucos, sem perceber: o que era consequência vira fundamento

6. O conflito interno do líder

Também é importante enxergar o outro lado.

Muitos líderes vivem uma tensão real: querem ser fiéis ao chamado, mas sentem pressão por crescimento e resultados, lidam com expectativas das pessoas, vivem sob julgamento constante. Alguns acabam cedendo à lógica de que precisam “provar” algo. E, nesse processo, o dinheiro pode virar um dos sinais dessa validação.

7. A pergunta mais honesta

A questão não é simplesmente: “Eles querem ganhar dinheiro?”

Mas: Se ninguém visse, ele continuaria fazendo o que faz? Se não houvesse retorno financeiro, ele permaneceria fiel? Se perdesse influência, ainda manteria a mesma mensagem?

Essas perguntas revelam o coração do chamado. Existem casos em que o dinheiro está sendo usado como ferramenta de autoridade. Mas não dá para dizer que isso define todos.

O ponto mais profundo é: quando a autoridade precisa ser sustentada por sinais externos, ela provavelmente já perdeu sua raiz interna.

O chamado pastoral não foi desenhado para provar grandeza. Foi desenhado para expressar serviço.  Quando o dinheiro entra como consequência, pode ser saudável. Quando entra como fundamento, distorce.

Desfrute da benção que o Senhor já liberou em sua vida

Leonardo Lima Ribeiro 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O Reino começa na iniciativa de Jesus — não na resposta do homem


1. O homem não inicia nada no Reino — ele responde.

Desde o início, o padrão é esse: Adão não buscou Deus após pecar — Deus o chamou: “Onde estás?”

Abraão não estava procurando uma promessa — Deus o chamou no meio da sua realidade

Paulo de Tarso não estava em transição espiritual — estava perseguindo a igreja quando foi interrompido.

Isso quebra completamente a lógica meritocrática espiritual.

O Reino não começa com: disciplina, jejum, consagração

Começa com intervenção divina. O homem não “ativa” Deus — é Deus quem desperta o homem.

Graça não anula resposta — ela gera resposta. Aqui é onde muita gente se perde. Se Deus inicia tudo, alguém pode pensar: “Então eu não preciso fazer nada.”

Mas isso não é evangelho — isso é distorção. A graça verdadeira não paralisa, ela capacita. Veja Paulo de Tarso dizendo que trabalhou mais do que todos — “não eu, mas a graça de Deus comigo.”

Ou seja: não é esforço para ser aceito, mas é esforço porque foi aceito. 

A ordem correta é: Deus age → eu respondo → a graça sustenta. Quando se inverte isso, nasce performance. Quando se ignora isso, nasce passividade.

Esforço carnal tenta produzir o que só a vida pode gerar. 

Religião ensina: “Faça mais para se tornar.”

O Reino ensina: “Receba vida, e então você se torna.”

Jesus Cristo nunca chamou ninguém para “tentar mais forte” — Ele disse: “permanecei em mim.”

Isso muda tudo. 

Porque agora: disciplina não é moeda de troca, obediência não é tentativa de aprovação, santidade não é construção humana. Tudo passa a ser fruto de conexão, não de esforço isolado. 

2. O perigo da passividade espiritual

Agora o outro extremo: usar isso como desculpa para não se mover.

Frases comuns: “Se Deus quiser, Ele faz”, “Estou esperando Deus agir”

Mas isso ignora um princípio: Deus inicia — mas Ele espera resposta.

Veja Pedro: Jesus chamou, mas quem teve que sair do barco foi Pedro. A água só sustenta depois do passo. Ficar no barco dizendo “se for de Deus, Ele me leva” é espiritualizar o medo.

O lugar correto: dependência ativa

O equilíbrio é esse: sem Jesus → não começa, sem resposta → não continua. 

Isso gera uma vida de: dependência (sem Ele não posso), movimento (com Ele eu vou). É aqui que a performance morre…e a passividade também.

Esforço sem encontro gera religião, não Reino. Comportamento pode ser ajustado sem que o coração seja transformado. O homem tem capacidade de mudar hábitos sem mudar natureza.

Ele aprende: falar certo, agir certo, se portar certo.

Mas isso não significa que houve vida de Jesus dentro dele. Fariseus eram o exemplo mais claro disso: externamente irrepreensíveis, internamente desconectados.

Jesus Cristo confronta isso com precisão: não era falta de prática — era falta de vida.

Isso revela algo forte: o comportamento pode impressionar homens, mas só o encontro transforma o interior.

Disciplina sem presença se torna peso, não fruto. Disciplina, por si só, não é o problema. O problema é quando ela nasce de ausência, não de encontro.

Sem presença de Deus: oração vira obrigação, leitura vira meta, jejum vira ferramenta de controle.

A pessoa até mantém constância…mas perde o sentido. Veja Marta de Betânia: ocupada com coisas certas, mas desconectada do essencial. Enquanto isso, Maria de Betânia escolhe a presença — e Jesus chama isso de “a melhor parte”.

Ou seja: atividade espiritual não substitui encontro espiritual.

3. Aparência espiritual sustenta reputação, mas não sustenta a alma. 

Quando não há encontro, a pessoa começa a viver de manutenção de imagem.

Ela: aprende o vocabulário certo, reproduz comportamentos espirituais, sustenta uma identidade diante dos outros. 

Mas por dentro: cansaço, vazio, desconexão. Saul perdeu a presença de Deus, mas tentou manter a aparência de rei ungido.

Isso é perigoso porque cria uma vida dupla: uma pública, espiritual, outra interna, seca. E quanto mais tempo isso dura, mais difícil é romper.

O encontro com Jesus desorganiza o controle humano. 

O Reino começa com um encontro — e encontro verdadeiro sempre quebra estruturas humanas.

Veja Isaías: Ele já era profeta…mas quando encontra a glória de Deus, ele diz: “Ai de mim”.

Ou seja: posição não substitui encontro, experiência passada não sustenta vida presente. 

O encontro: expõe, alinha, transforma. Sem isso, o homem só melhora a versão antiga de si mesmo.

O Reino é vida recebida, não desempenho construído

Aqui está o ponto central: 

Religião ensina: “se esforce para produzir vida”

O Reino revela: “receba vida — e ela produzirá fruto”

Jesus Cristo nunca chamou pessoas para performar, mas para vir a Ele.

Porque: sem encontro → esforço vira tentativa, com encontro → esforço vira resposta

O esforço não é descartado, é reposicionado. A graça inicia — mas também exige correspondência. 

A graça não é apenas o começo da jornada, ela define o tipo de resposta que Deus espera. 

Paulo de Tarso recebeu tudo pela graça…mas não viveu de forma passiva.

Ele entendeu algo raro: a graça que me alcança, é a mesma que me move.

Por isso ele trabalha, se entrega, sofre, persevera — não para conquistar algo, mas porque foi alcançado por algo.

Quando não há resposta, não é humildade…é resistência.

Obediência é o lugar onde o encontro se torna vida prática. Muita gente valoriza o encontro, mas evita a obediência. Só que o encontro verdadeiro sempre gera direção.

Pedro teve um encontro com Jesus — mas foi na obediência (lançar as redes, sair do barco, seguir) que a vida foi transformada.

Sem obediência: o encontro vira memória, a revelação vira teoria, a fé vira discurso, é na resposta que o invisível se torna visível.

Entrega não é emoção — é decisão sustentada. Muitos confundem entrega com sentir algo profundo.

Mas entrega, no Reino, é continuidade. 

Abraão não apenas ouviu Jesus — ele caminhou por anos sustentando uma palavra. Isso envolve esforço, sim.

Mas não um esforço de conquista — e sim de permanência.

Porque depois do “sim” inicial, vem o processo.

E é no processo que muitos travam: começam no Espírito, tentam continuar na força, ou simplesmente desistem quando não sentem mais nada

Alinhamento exige renúncia — e renúncia exige ação. Quando Deus revela algo, Ele não está apenas informando — Ele está convidando para alinhamento. E alinhamento sempre custa algo. o jovem rico teve revelação direta…mas não conseguiu responder.

Por quê?

Porque havia algo que ele não quis soltar.

Isso mostra: nem toda falta de resposta é falta de entendimento — às vezes é falta de disposição para renunciar.

O esforço correto é fruto de dependência, não de ansiedade.

Existe um esforço que nasce da carne (ansiedade, medo, necessidade de controle), e existe um esforço que nasce do Espírito (resposta, fé, alinhamento).

A diferença não está no que você faz — mas de onde isso vem.

Jesus Cristo viveu uma vida ativa, intensa, disciplinada — mas nunca desconectada do Pai.

Ele não fazia para provar algo. Ele fazia porque estava em comunhão.

4. Graça não anula disciplina, ela dá sentido à disciplina

A disciplina revela a fonte — não substitui a fonte. Disciplina nunca foi o problema. O problema é quando ela tenta ocupar o lugar da graça. 

Sem graça: disciplina vira tentativa de se sustentar, rotina vira obrigação pesada, constância vira cobrança interna

Com graça: disciplina se torna fluxo, rotina ganha propósito, constância vira resposta natural. Jesus Cristo tinha uma vida profundamente disciplinada — orava, se retirava, mantinha comunhão constante. Mas Ele nunca fazia isso para “manter Deus perto” — Ele fazia porque já estava em perfeita comunhão com o Pai. A disciplina não criava a conexão — ela expressava a conexão.

O cansaço espiritual denuncia desconexão da graça. Quando a disciplina vira peso constante, algo está desalinhado.

Porque a graça: sustenta, fortalece, renova. Elias experimentou isso: depois de um grande mover, entrou em exaustão profunda.

Deus não respondeu aumentando a exigência — Ele restaurou o profeta.

Isso mostra: Deus não constrói uma vida espiritual baseada em esgotamento. Se a prática está drenando continuamente, provavelmente a pessoa está tentando sustentar com esforço o que deveria fluir da graça.

A graça não diminui intensidade — ela purifica a motivação. Tem gente que acha que viver na graça é “pegar leve”. Mas quando você olha para Paulo de Tarso, vê o contrário. 

Ele foi: intenso, constante, perseverante. Só que sem o peso da autopromoção espiritual. 

A diferença é sutil, mas profunda: antes: “eu preciso fazer”, depois: “eu respondo ao que recebi”

A graça não reduz o nível de entrega — ela remove a ansiedade por trás dela. Disciplina com graça gera consistência, não oscilação. Quando a disciplina nasce da força humana, ela oscila: um dia motivado, outro dia travado, um período intenso, outro de abandono. 

Mas quando nasce da graça, ela se torna sustentável.

Veja Daniel: sua vida de oração não era baseada em emoção, mas em constância alinhada com Deus.

Isso não era esforço vazio — era vida estruturada ao redor da presença.

A verdadeira disciplina é permanecer, não provar. No fim, tudo volta para isso: Jesus Cristo nunca chamou ninguém para provar valor através de práticas — Ele chamou para permanecer.

Porque quando alguém permanece: ora porque quer estar, lê porque quer ouvir, jejua porque quer se alinhar. E não porque precisa “alcançar” algo.

O Reino começa no invisível, não no comportamento. Jesus não começa pelo exterior — Ele começa pela raiz. O homem olha para atitudes. Jesus olha para a origem. Antes de corrigir o que você faz, Deus trata de quem você é.

Davi entendeu isso quando disse que Jesus se agrada da verdade no íntimo.

Não é sobre aparência ajustada — é sobre interior alinhado. Isso muda completamente a lógica: Deus não está reformando comportamento — Ele está gerando uma nova fonte.

Novo nascimento não é melhoria — é substituição de natureza. 

Jesus Cristo não disse: “tente viver melhor”

Ele disse: “é necessário nascer de novo.”

Isso é radical. 

Porque novo nascimento não é: evolução espiritual, aperfeiçoamento moral, ajuste de hábitos. É troca de natureza.

Veja Nicodemos: religioso, disciplinado, conhecedor…mas ainda assim precisava nascer de novo.

Isso mostra que: religião pode educar o comportamento, mas não gera vida espiritual.

5. Identidade vem antes de prática

Muita gente tenta viver algo que ainda não se tornou internamente.

E aí entra em conflito: tenta perdoar sem ter sido curado, tenta obedecer sem ter sido transformado, tenta permanecer sem ter sido enraizado. Paulo de Tarso primeiro entende quem é em Cristo…e então começa a viver a partir disso.

No Reino, a ordem é: ser → antes de fazer. Quando isso é invertido, nasce frustração.

O comportamento é fruto visível de uma realidade invisível. Tudo o que aparece por fora tem origem por dentro. Jesus Cristo ensinou que a árvore é conhecida pelo fruto — mas o fruto não é o foco, é o reflexo.

Se você tenta mudar o fruto sem tratar a raiz: gera esforço constante, produz mudança temporária, cria ciclos de queda e culpa. 

Mas quando a raiz é transformada: o fruto se torna natural, a mudança se sustenta, a vida flui sem forçar. Transformação verdadeira acontece de dentro para fora. O Reino não opera por pressão externa, mas por vida interna.

Veja Zaqueu: Jesus não mandou ele devolver nada. Primeiro houve encontro — depois veio transformação.

Ele espontaneamente: restitui, muda postura, realinha sua vida. 

Isso revela algo poderoso: quando o interior é tocado, o exterior responde.

Esforço sem vida sempre termina em três caminhos

Quando alguém tenta viver o Reino só na força, o resultado pode até variar na aparência — mas a raiz é a mesma. Alguns se frustram, porque percebem que nunca é suficiente, outros se cansam, porque estão sustentando algo pesado demais, outros endurecem, e viram religiosos rígidos para justificar o esforço, fariseus são o exemplo mais claro: começaram com zelo… terminaram presos em um sistema sem vida.

Isso mostra: quando não há vida, o esforço sempre cobra um preço.

O problema não é falta de dedicação — é falta de encontro real. Muita gente tenta resolver com mais disciplina o que só se resolve com encontro.

Ela pensa: “preciso orar mais”, “preciso me esforçar mais”, “preciso me corrigir mais”. Mas, na verdade, o que falta é ser alcançado de verdade.

Veja Paulo de Tarso: antes do encontro, ele já era extremamente disciplinado — mas estava totalmente desalinhado.

Ou seja: intensidade sem direção divina ainda é desvio. Quando há encontro, a motivação muda completamente. Depois que alguém é tocado por Jesus, a mesma prática ganha outro significado:

Obediência deixa de ser peso → vira resposta. Disciplina deixa de ser obrigação → vira desejo. Constância deixa de ser esforço → vira fluxo.  Pedro antes resistia, negava, oscilava… depois do encontro e da restauração, se torna firme e disposto a ir até o fim.

O que mudou?

Não foi só comportamento — foi o interior.

Amor é a força que sustenta o que a obrigação nunca sustentará. Sem amor, tudo depende de força de vontade. E força de vontade sempre tem limite. 

Mas quando há amor: há prazer em obedecer, há sentido na disciplina, há constância mesmo sem emoção. Jesus Cristo resume isso: quem ama, guarda. 

Isso revela uma chave profunda: o amor faz leve o que a obrigação torna pesado. 

Sistema pode ser mantido por esforço — vida só vem de Jesus. 

Aqui está o ponto final, sem romantizar: 

Você pode, sim, construir um sistema religioso com esforço: rotina, linguagem, comportamento, aparência

Tudo isso pode ser sustentado humanamente.

Mas vida espiritual real… não. 

Vida: nasce de Jesus, é sustentada por Jesus,  e flui a partir de Jesus 

Deus te abençoe e ilumine sua mente e coração

Deus sempre toma a iniciativa:

“Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Jesus Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.”— Romanos:8

“Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer…”— João:44

“Nós amamos porque Ele nos amou primeiro.”— 1 João:19

“Mas, pela graça de Deus, sou o que sou… trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo.”— 1 Coríntios:10

“Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar…”— Filipenses:13

"Sede praticantes da palavra e não somente ouvintes…”— Tiago:22

“Desperta, tu que dormes… e Cristo te iluminará.”— Efésios:14

“Empenhai-vos por entrar pela porta estreita…”— Lucas:24

“Tendo começado no Espírito, estais agora vos aperfeiçoando na carne?”— Gálatas:3

“O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.”— João:6

“Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.”— Mateus:8

“Maria escolheu a boa parte…”— Lucas:42

“Tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder…”— 2 Timóteo:5

“Ai de vós… porque sois semelhantes aos sepulcros caiados…”— Mateus:27

“Ai de mim… porque sou homem de lábios impuros…”— Isaías:5

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos.”— João:15

“A fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.”— Tiago:17

“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo…”— Mateus:24

“Uma coisa te falta…”— Marcos:21

“Exercita-te pessoalmente na piedade.”— 1 Timóteo:7

“Buscai primeiro o Reino de Deus…”— Mateus:33

“Vinde a mim… e eu vos aliviarei.”— Mateus:28

“O meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.”— Mateus:30

Quando vira peso constante, algo saiu da graça.

Leonardo Lima Ribeiro 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O que é mesquinhez?


Mesquinhez é uma postura interior de pequenez, caracterizada por: apego excessivo ao que se tem (dinheiro, tempo, reconhecimento), dificuldade em compartilhar, visão limitada da vida e das pessoas, atitudes egoístas, calculistas e, muitas vezes, desconfiadas.

Não é apenas sobre “não dar coisas”, mas sobre como a pessoa enxerga o mundo.

Pela ciência (psicologia e comportamento)

A mesquinhez está muito ligada ao que a psicologia chama de mentalidade de escassez (scarcity mindset).

Pessoas mesquinhas tendem a: acreditar que nunca há o suficiente (mesmo quando há), viver em estado de ameaça constante, priorizar o “guardar” em vez do “fluir”, ter maior ativação de áreas cerebrais ligadas ao medo e autoproteção.

Estudos em neurociência mostram que: quando alguém age com generosidade, há ativação do sistema de recompensa (dopamina), quando alguém vive em escassez, o cérebro entra em modo de sobrevivência, reduzindo empatia e visão de longo prazo.

Ou seja: mesquinhez não é só moral — é também neurológica e emocional.

Pela Bíblia: A Bíblia trata a mesquinhez como algo mais profundo que dinheiro: é uma condição do coração.

1. Ligada à visão interior: “Se os teus olhos forem maus, todo o teu corpo será trevas” (Mateus 6:23)

Aqui, “olhos maus” no contexto hebraico significa avareza / mesquinhez.

Ou seja: a forma como você vê determina como você vive.

2. Contraponto: generosidade

“A alma generosa prosperará” (Provérbios 11:25)

A Bíblia ensina que: quem retém além do necessário entra em escassez, quem libera, entra em fluxo.

3. Raiz espiritual

Mesquinhez revela: falta de confiança em Deus como provedor, apego ao controle, identidade baseada no que se possui

“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6:21)

Definição profunda (integrando ciência + Bíblia)

Mesquinhez é: Uma expressão de medo interior que gera apego, limita a generosidade e distorce a percepção da realidade, produzindo uma vida de escassez mesmo em meio à abundância.

Mesquinhez não é falta de recurso → é falta de visão

Não é pobreza externa → é escassez interna

Não é economia → é prisão emocional

Não é prudência → é medo disfarçado

1. A RAIZ DA MESQUINHEZ

Ciência: origem interna

A mesquinhez nasce principalmente de três fatores:

1. Medo de faltar. O cérebro humano foi programado para sobrevivência. Quando alguém vive (ou viveu) situações de escassez: falta de recursos, insegurança emocional, rejeição, o cérebro entra em modo de retenção.

Isso ativa a amígdala (centro do medo), gerando: controle excessivo, dificuldade de confiar, apego ao que possui.

2. Identidade baseada em posse

A pessoa começa a pensar: “Eu sou o que eu tenho”

Isso gera: comparação, proteção exagerada, incapacidade de compartilhar.

3. Mentalidade de escassez

Mesmo tendo, a pessoa sente que não tem.

Isso distorce a realidade: vê perda onde há investimento, vê ameaça onde há oportunidade, vê risco onde há fé.

Bíblia: raiz espiritual. A Bíblia vai mais fundo — ela revela que a mesquinhez é um problema de coração e fé.

1. Falta de confiança em Deus

“Não andeis ansiosos…” (Mateus 6)

Mesquinhez diz: “Se eu não segurar, eu vou perder.”

Fé diz: “Deus é minha fonte.”

2. Coração preso ao material

“Onde está o teu tesouro…” (Mateus 6:21) O problema não é ter coisas, É quando as coisas te têm

3. Olho maligno (visão distorcida)

Na cultura bíblica, “olho mau” = avareza / mesquinhez

Ou seja: mesquinhez é uma forma de enxergar a vida

2. COMO A MESQUINHEZ SE MANIFESTA

Ela nem sempre é óbvia. Pode aparecer como: dificuldade de dar (tempo, dinheiro, atenção); cálculo em tudo (“o que eu ganho com isso?”); inveja disfarçada; crítica à generosidade dos outros; frieza emocional; controle excessivo

Importante: Mesquinhez não é sobre quantidade, é sobre postura do coração.

3. CONSEQUÊNCIAS (CIÊNCIA + BÍBLIA)

Cientificamente: aumenta ansiedade, reduz bem-estar, prejudica relacionamentos, ativa estado constante de estresse

A pessoa vive em modo de escassez permanente

Espiritualmente:

1. Interrompe o fluxo: “Quem retém mais do que é justo, acaba na pobreza” (Provérbios 11:24)

2. Endurece o coração: menos sensibilidade, menos compaixão, menos percepção de Deus

3. Impede crescimento espiritual

Porque o Reino de Deus funciona por entrega, não retenção

4. O PRINCÍPIO DO REINO: FLUXO

A Bíblia mostra um padrão: Tudo que Deus criou funciona em fluxo: respiração (entra e sai), água (corre), vida (se multiplica)

“Dai, e ser-vos-á dado” (Lucas 6:38)

Ciência confirma:

Generosidade ativa: dopamina (prazer), ocitocina (conexão), serotonina (bem-estar)

Ou seja: Deus mandou dar não só por princípio espiritual, mas porque isso cura o ser humano por dentro.

5. COMO VENCER A MESQUINHEZ

1. Renovar a mente

Trocar: 

escassez → abundância

medo → confiança

2. Praticar generosidade intencional

Mesmo sem sentir vontade. Isso “reprograma” o cérebro.

3. Curar a raiz emocional

Pergunta profunda: “Onde eu aprendi que não haveria o suficiente?”

4. Revelação de Deus como Pai

Quando você entende que Deus provê: você para de reter, começa a fluir.

“Mesquinhez não é sobre falta de recursos, é sobre falta de revelação.” 

“Quem vive segurando tudo, na verdade está sendo segurado pelo medo.”

Quando olhamos para Judas Iscariotes e para o jovem rico, não estamos apenas diante de duas histórias bíblicas, mas de dois espelhos do coração humano. Ambos tiveram um encontro real com Jesus, ambos tiveram oportunidade de responder ao chamado, mas o que os impediu não foi ignorância — foi algo mais profundo: um coração preso.

Judas caminhava com Jesus todos os dias. Ele ouviu as mesmas palavras, viu os mesmos milagres, participou da mesma missão. Por fora, ele era como os outros discípulos. Mas por dentro, havia um processo silencioso acontecendo. A Bíblia revela que ele roubava da bolsa. Não era algo escandaloso no início, provavelmente eram pequenas quantias, pequenas concessões, pequenas justificativas. E é assim que a mesquinhez cresce: não como um grande pecado de uma vez, mas como uma sequência de pequenas retenções. A ciência mostra que, quando alguém repete pequenos atos de desonestidade, o cérebro começa a se adaptar, a consciência vai sendo silenciada, e aquilo que antes incomodava passa a parecer normal. Judas foi se acostumando a reter o que não era dele, e isso foi moldando sua percepção da realidade.

Quando Maria derrama o perfume caro sobre Jesus, Judas não consegue enxergar beleza naquele ato. Ele critica, questiona, tenta dar uma aparência de racionalidade ao que, na verdade, era um coração incomodado pela generosidade. Isso revela algo profundo: a mesquinhez distorce a forma como vemos o amor. O que é entrega passa a parecer desperdício. O que é adoração passa a parecer exagero. E, no fim, Judas chega ao ponto mais extremo dessa distorção: ele coloca um preço em Jesus. Trinta moedas. Quando alguém vive muito tempo preso à lógica da escassez, tudo passa a ser mensurável, tudo precisa ter valor calculado, até aquilo que é eterno.

O jovem rico, por outro lado, não tinha esse tipo de corrupção oculta. Ele era correto, moral, disciplinado. Ele buscava a vida eterna de forma sincera. Quando ele se aproxima de Jesus, há uma abertura real ali. Mas Jesus não responde apenas à pergunta dele, responde ao coração dele. E o coração daquele jovem estava ligado às suas riquezas. Quando Jesus o convida a vender tudo e segui-lo, não está propondo apenas um ato externo, mas está tocando no centro da sua segurança. E naquele momento, surge um conflito interno profundo. Ele quer Jesus, mas também quer manter o controle da própria vida. Ele quer a eternidade, mas sem abrir mão daquilo que lhe dá sensação de segurança no presente.

A reação dele é silenciosa, mas extremamente reveladora: ele se retira triste. Essa tristeza é muito significativa. Diferente de Judas, que já estava endurecido, o jovem rico ainda sente. Ele percebe o peso da escolha. A ciência explica que, quando há um conflito entre valores profundos e apego emocional, o ser humano experimenta uma tensão interna intensa. É exatamente isso que está acontecendo ali. Ele não está indiferente — ele está dividido. Mas, no final, ele escolhe manter o que tem em vez de se entregar ao que poderia se tornar.

Esses dois personagens mostram que a mesquinhez não se manifesta apenas de uma forma. Em Judas, ela aparece como corrupção progressiva, como alguém que foi perdendo a sensibilidade até chegar à traição. No jovem rico, ela aparece como apego, como alguém que não consegue soltar, mesmo desejando algo maior. Um trai Jesus por dinheiro; o outro não o segue por causa dele. Um endurece o coração; o outro mantém a sensibilidade, mas não se rende.

O ponto em comum entre os dois é mais profundo do que o dinheiro em si. Ambos, de formas diferentes, não conseguiram confiar plenamente. No fundo, a mesquinhez sempre revela isso: uma dificuldade de acreditar que Deus é suficiente. É o medo de perder, o medo de não ter, o medo de deixar de controlar. E esse medo prende o coração, limita a visão e impede a pessoa de viver a plenitude do que Deus tem.

A história deles não é apenas um registro do passado, é um convite à reflexão. Porque a pergunta não é apenas por que eles agiram assim, mas onde isso pode existir dentro de nós. Às vezes não estamos roubando como Judas, nem recusando explicitamente como o jovem rico, mas podemos estar vivendo pequenas retenções, pequenos apegos, pequenas resistências que, ao longo do tempo, moldam nosso coração. E é justamente aí que a transformação começa: quando percebemos que o problema nunca foi o quanto temos, mas o quanto isso nos prende.

1. CONFRONTO COM A VERDADE (Consciência)

Antes de mudar, é preciso enxergar.

Perguntas que revelam a raiz: Onde eu tenho dificuldade de soltar? O que me causa desconforto quando vejo alguém sendo generoso? Em que área eu sempre calculo antes de agir?

Na terapia, isso é chamado de tomada de consciência.

Na Bíblia, é luz: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”

Sem luz, não há transformação — só comportamento ajustado.

2. IDENTIFICAR A RAIZ EMOCIONAL

A mesquinhez quase sempre nasceu em algum momento da história: falta na infância, medo de perder, traições ou abandono, ambiente de escassez

“Quando eu aprendi que não haveria o suficiente?”

Aqui você começa a perceber que: o comportamento de hoje é uma proteção antiga

3. CURA INTERIOR (Espiritual + emocional)

Agora não é só entender — é curar.

Ação: traga à memória situações de escassez ou medo, reconheça a dor sem fugir, entregue isso a Deus em oração

Você pode orar assim (de forma simples e real): “Pai, eu aprendi a reter porque tive medo de faltar. Hoje eu reconheço isso. Cura meu coração e me ensina a confiar.”

Isso ativa processos de ressignificação emocional

Isso é o que a Bíblia chama de renovação interior

4. RENOVAÇÃO DA MENTE

Você precisa substituir a mentira pela verdade.

Mentira interna: “Se eu der, vai faltar”, “Eu preciso me proteger”, “Ninguém cuida de mim”

Verdade: Deus é fonte, não o recurso, provisão não vem do que você segura, mas de Deus, você não está sozinho

“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará”

Repetição cria novos caminhos neurais

Meditação na Palavra transforma a mente

5. PRÁTICA INTENCIONAL DE GENEROSIDADE

Aqui está um ponto-chave: você não espera sentir — você age para transformar o sentir.

Comece pequeno, mas constante: dê algo sem esperar retorno, ajude alguém sem ser visto, compartilhe tempo, atenção, recurso.

Isso reprograma o cérebro (quebra o ciclo de escassez)

Isso ativa o princípio do Reino: “Dai, e ser-vos-á dado”

6. QUEBRA DO CONTROLE

Mesquinhez é, no fundo, controle. 

Então você precisa praticar: confiar sem garantias, soltar sem ter tudo sob domínio

Exercício profundo: faça algo generoso que te cause um leve desconforto

Esse desconforto é o lugar da transformação

7. ALINHAMENTO DE IDENTIDADE

Você não é alguém tentando ser generoso. Você é alguém que já foi aceito, cuidado e suprido por Deus.

Quando isso se torna real: você para de viver para se proteger, começa a viver para fluir

“De graça recebestes, de graça dai”

8. VIDA EM FLUXO (Manutenção)

A cura não é um evento, é um estilo de vida.

Sinais de que você está sendo transformado: alegria em ver outros prosperarem, leveza ao dar, menos cálculo, mais sensibilidade, paz em confiar

“Eu não retenho porque tenho medo — eu libero porque confio.”

Existe uma diferença espiritual e psicológica entre dar por compaixão e dar por honra.

Dar ao pobre é algo natural ao ser humano. A própria ciência mostra que, quando vemos alguém em necessidade, áreas do cérebro ligadas à empatia são ativadas. Existe um impulso quase automático de ajudar quem está sofrendo. Isso é bom, é saudável, é correto — e a Bíblia também afirma isso com muita clareza.

Mas honrar alguém que não precisa… isso já não é automático. Isso exige algo mais profundo: reconhecimento de valor, humildade e maturidade espiritual.

Porque, nesse caso, você não está respondendo à dor do outro… você está lidando com o seu próprio coração.

A dificuldade começa aqui: quando a pessoa não está em necessidade, a mente entra em um modo diferente. Surge um pensamento quase inconsciente: “por que eu daria, se ele já tem?” E por trás disso existem camadas mais profundas — comparação, senso de justiça distorcido e, muitas vezes, orgulho.

A honra mexe com o ego. Porque honrar alguém que não precisa é, de certa forma, reconhecer que aquela pessoa tem valor, posição, graça ou algo que você talvez não tenha ou não reconheça plenamente. E isso confronta o coração.

Por isso, muitas pessoas dão com facilidade ao necessitado, mas travam completamente quando se trata de honrar alguém que está em posição, liderança ou até mesmo prosperidade.

A Bíblia trata isso de forma muito clara. Quando fala de honra, não está falando de caridade, está falando de reconhecimento de valor.

Existe um episódio muito revelador quando uma mulher unge Jesus com um perfume extremamente caro. Aquilo não era necessidade. Jesus não precisava daquilo. Mas era honra. E a reação de quem estava ao redor revela exatamente esse conflito interior — questionaram, criticaram, tentaram racionalizar. A lógica era: “isso poderia ser dado aos pobres”. Parece correto… mas Jesus não corrige o ato da mulher, Ele corrige o coração dos que criticaram.

Isso mostra algo muito forte: nem toda “boa justificativa” vem de um coração alinhado.

Às vezes, usar o argumento de ajudar o pobre pode esconder uma dificuldade de honrar.

E aqui entra um ponto importante: dar ao pobre supre uma necessidade… mas honrar alguém estabelece princípios espirituais de reconhecimento, alinhamento e fluxo.

Na prática, dar ao necessitado não confronta tanto o ego — você continua em uma posição confortável, até superior. Mas honrar alguém que não precisa pode exigir que você: reconheça valor acima de você, celebre sem inveja, libere sem esperar retorno emocional

Isso exige maturidade.

Existe também um aspecto psicológico: o ser humano tende a querer que a distribuição seja “justa” segundo sua própria lógica. Então, quando vê alguém que já tem recebendo algo, pode sentir incômodo, como se aquilo fosse “injusto”. Mas o Reino de Deus não opera apenas por lógica de necessidade — opera por princípios de honra, propósito e alinhamento.

No fundo, essa dificuldade revela algo muito específico: não é sobre dinheiro, é sobre posicionamento do coração.

Uma pessoa pode ser generosa com os pobres e ainda assim ter dificuldade com honra. E isso não significa que ela é ruim — significa que ainda há áreas do coração que precisam ser alinhadas.

A maturidade espiritual acontece quando a pessoa consegue: dar por compaixão sem orgulho, e honrar sem resistência

Quando ela entende que: ajudar o necessitado expressa amor, honrar expressa reconhecimento espiritual

E os dois são importantes, mas são diferentes.

Um sinal de transformação real é quando o coração começa a se alegrar não só em aliviar a dor… mas também em reconhecer valor.

Porque, no fim, a honra não é sobre quem recebe — é sobre quem se torna livre para reconhecer.

Oremos:

Pai, eu me coloco diante de Ti com sinceridade. Sem máscaras, sem justificativas, sem tentar parecer melhor do que sou.

Tu conheces o meu coração… Tu sabes onde eu retenho, onde eu tenho medo, onde eu tento controlar.

Hoje eu reconheço: muitas vezes eu vivi como se estivesse sozinho, como se tudo dependesse de mim, como se, se eu não segurasse, eu iria perder.

Mas isso não é verdade.

Eu confesso que houve medo dentro de mim. Medo de faltar. Medo de perder. Medo de confiar.

E esse medo moldou minhas atitudes…minha forma de pensar…minha forma de lidar com as pessoas… e até contigo.

Mas hoje eu não quero mais viver assim.

Cura, Pai, as raízes dentro de mim. Se houve escassez no passado, toca nisso agora.

Se houve dor, abandono ou insegurança, entra nesses lugares.

Eu entrego a Ti toda mentalidade de escassez.

Eu renuncio ao controle. Eu renuncio à necessidade de me proteger o tempo todo.

E escolho confiar. Ensina-me a viver como alguém que é cuidado por Ti. Revela ao meu coração que Tu és a minha fonte.

Que eu não preciso reter para ter segurança, porque a minha segurança está em Ti. Transforma dentro de mim aquilo que ainda é pequeno, aquilo que ainda é preso, aquilo que ainda tem medo.

Gera em mim um coração livre. Um coração generoso. Um coração que flui. Que eu tenha alegria em dar, leveza em compartilhar, e paz em confiar. 

Que aquilo que antes era medo, se torne fé.

E que a minha vida deixe de ser marcada pela retenção, e passe a ser marcada pelo fluxo.

Eu não quero apenas mudar comportamentos, eu quero ser transformado por dentro.

Recebo agora a Tua cura, recebo a Tua paz, recebo a Tua verdade.

E escolho viver confiando em Ti. Em nome de Jesus, amém.

Deus vos abençoe

Leonardo Lima Ribeiro 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Espirito Santo crê em você

                                               

Não deixe de ser participativo. Seja proativo, seja intencional em compartilhar a Palavra e também em recebê-la.

Quero pedir que você pegue sua Bíblia e anote alguns versículos para meditar depois.

Primeiro versículo:

Judas 1:20; Romanos 8:26; 1 Coríntios 14:14-15

Agora, sobre vida no Espírito:

Gálatas 5:16; Gálatas 5:22-23; Romanos 8:5-6; Romanos 8:14; 2 Coríntios 3:17; Gálatas 5:25 e Romanos 8:11

Se você ainda não entregou sua vida a Jesus, faça isso hoje.

Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Não existe vida fora de Cristo.

A oração no Espírito não é uma visão ministerial — ela é uma ferramenta.

Porque, no corpo de Cristo, existem cinco ministérios: apostólico, profético, evangelístico, pastoral e de ensino.

Esses ministérios têm a função de edificar — ou seja, construir.

O corpo de Cristo é formado por aqueles que nasceram de novo, aqueles que confessaram Jesus como Senhor e Salvador. E esses ministérios existem para o crescimento e amadurecimento dessas pessoas. Cada um é chamado de forma diferente. Deus, em sua soberania, forma cada pessoa de maneira única.

Por exemplo, o apóstolo Paulo foi chamado diretamente por Cristo. Mas ainda assim houve influência humana, como quando ele presenciou a pregação e o martírio de Estêvão.

A semente foi plantada.

E quando Jesus apareceu a Paulo, ele o reconheceu como Senhor. Quando Jesus disse: “Por que me persegues?”, Ele estava falando da igreja, porque perseguir a igreja é perseguir o próprio Cristo.

A igreja não é uma instituição — ela é formada por pessoas, por “pedras vivas”.

Nós somos o templo onde o Espírito Santo habita. E o que nos une não é uma denominação, mas o Espírito. Na comunhão, manifestamos a unidade do Espírito — e é assim que o mundo vê Cristo em nós.

Agora, algo importante:

É impossível ouvir a Palavra ministrada pelo Espírito, recebê-la no espírito e não crescer. Porque o fruto do Espírito não é produzido pelo intelecto, nem pela ciência, mas pelo próprio Espírito. Podemos organizar estruturas, planejar, usar estratégias — isso é necessário.

Mas a Palavra só transforma quando é ministrada de espírito para espírito.

Talvez você já tenha percebido isso:

Quando você fala com alguém de coração fechado, nada flui.

Mas quando há honra, reconhecimento, abertura… a Palavra flui com poder.

Às vezes você prepara algo, mas Deus começa a falar além do que foi planejado.

Isso acontece porque há conexão espiritual.

A pessoa não reconhece o homem, mas a unção que está sobre ele. E é dessa unção que ela recebe.

O que recebemos de Deus é uma semente. E essa semente é desenvolvida ao longo da jornada.

A unção é produzida. Assim como o azeite é extraído na prensa, a unção é formada através da mortificação do velho homem. Quando o velho homem é crucificado, o novo homem se manifesta.

E é nele que está o poder, a glória, a unção.

Agora, uma pergunta para você refletir:

Por que pessoas na mesma igreja, ouvindo a mesma Palavra, não recebem na mesma medida?

Não é Deus fazendo acepção de pessoas. É o nível de conexão, de honra, de abertura espiritual. Alguns recebem mais porque estão mais abertos. E isso nos leva a um princípio importante: honra.

Honra é reconhecer aquilo que está diante de você. E quanto mais você reconhece, mais você recebe. Então, honra é isso: é ter estima, valor. É o quanto aquilo é valioso para você. Por exemplo, eu vejo muitas pessoas que não têm disposição no coração para se mover em direção àquilo que dizem querer para a própria vida.

Vou falar de mim e da minha esposa. Quando nós acreditávamos naquilo que estávamos buscando — na unção, naquela verdade — nós nos movíamos. Juntávamos dinheiro, parcelávamos no cartão, comprávamos passagem aérea, viajávamos…Fazíamos de tudo para estar perto daquela pessoa, para ter uma hora, duas horas com ela, e receber aquilo que Deus havia depositado na vida dela.

Agora, vamos falar sobre oferta financeira.

Por que a oferta financeira é tão poderosa?

Se você olhar comentários de vídeos que falam sobre dinheiro, verá muita crítica — inclusive de cristãos, acusando outros irmãos.

Mas, muitas vezes, são essas mesmas pessoas que não desfrutam do sobrenatural, nem das coisas que estão disponíveis pela fé.

Quando você decide se mover, você viaja, se organiza, busca meios de estar com aquela pessoa.

Não porque ela seja inacessível, mas porque ministérios maiores envolvem agendas, compromissos…Então você precisa se posicionar para ter acesso.

E alguém pode dizer: “Eu não preciso receber nada de homem, recebo tudo do Espírito Santo.”

Eu não acredito totalmente nisso.

Por quê? Porque existem coisas que você só vai receber diretamente de Deus — através da sua relação com Ele. Mas existem coisas que você só vai receber através de pessoas.

Por isso a Bíblia diz: “Sujeitai-vos uns aos outros.”

E também fala sobre honra: Honrar o presbítero, honrar aquele que te instrui. Porque a honra é um princípio poderoso.

Em Provérbios, está escrito:

“Honra ao Senhor com as primícias da tua fazenda.”

Quando fala de fazenda, está falando de finanças.

Então, como eu honro aquilo que eu quero receber?

Peça direção ao Espírito Santo. A honra financeira é poderosa porque envolve o coração. Jesus disse que existem dois senhores: Deus e as riquezas. E a Bíblia também diz que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Se você olhar para o mundo hoje — guerras, violência, corrupção, exploração — tudo está ligado, de alguma forma, ao amor pelo dinheiro.

O dinheiro em si não é o problema. Ele é um meio, uma ferramenta. Mas onde está o seu coração, ali está o seu tesouro. Então, quando você pratica a generosidade, você está redirecionando o seu coração. Você deixa de viver para o dinheiro e passa a viver pelos princípios do Reino.

E isso abre espaço para você experimentar o poder de Deus.

Agora, pense comigo:

Dez pessoas frequentam a mesma igreja. Ouvem a mesma Palavra, participam das mesmas atividades. Mas duas recebem milagres, curas, sinais… e prosperam. 

Enquanto as outras não.

Por quê?

Isso tem a ver com três coisas: coração, fé e honra. Você pode estar há anos na igreja, buscando, pedindo, esperando…E de repente chega alguém, talvez pela primeira vez, e recebe algo poderoso de Deus.

E você se pergunta: “Por que não eu?” Muitas vezes, a resposta está na incredulidade ou na falta de alinhamento do coração.

A honra financeira é apenas um dos fatores — existem outros — mas ela é uma expressão prática da fé.

E aqui é importante deixar claro: Ninguém compra milagre. Milagre é gratuito. Deus faz pela graça, pela fé.

Não depende de oferta, nem de dízimo.

Estamos falando de outra coisa: crescimento espiritual, relacionamento no corpo de Cristo e desenvolvimento da unção.

Por isso Paulo diz: “Sujeitai-vos uns aos outros.”, “Honrai uns aos outros.”

E Jesus disse: “Aquele que recebe um profeta como profeta, receberá galardão de profeta.”

Ou seja, você recebe daquilo que você reconhece. Se você reconhece uma unção de cura, você recebe dela. Se reconhece ensino, recebe ensino. E muitas vezes, a honra é expressa financeiramente porque revela valor — revela fé. Eu falo isso pela minha própria experiência. Quando viajei para outros lugares, quando participei de eventos, sempre procurei honrar — seja com oferta, seja com algo de valor.

Não como troca, não como barganha, mas como expressão de fé e reconhecimento. 

A Bíblia não usa a linguagem de compra e venda nesse contexto.

Ela usa a palavra honra.

E isso aparece tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

Por exemplo: Jacó, mesmo enfrentando um momento de crise econômica em sua terra, enviou presentes ao faraó como forma de honra, reconhecendo autoridade.

A rainha de Sabá levou o melhor que tinha até Salomão, reconhecendo a sabedoria que estava sobre ele.

A viúva, ao encontrar o profeta, mesmo com pouco, entregou — e recebeu uma palavra profética que mudou sua história.

Quando ela creu, ela recebeu. Porque no Reino, a fé ativa princípios espirituais.

Existe também um princípio importante: O espiritual se manifesta através do natural.

Por isso, honrar a Deus também envolve honrar pessoas. E isso não é apenas Antigo Testamento — está no Novo também.

Jesus mesmo disse que não pôde fazer muitos milagres em Nazaré.

Por quê?

Porque não havia honra.

Ele disse: “Um profeta não tem honra na sua própria casa.”

As pessoas viam Jesus apenas como alguém comum. Não reconheciam a unção. E onde não há reconhecimento, não há recepção.

Por exemplo: Quando alguém recebe oração e é curado, não é porque reconheceu a pessoa — mas porque reconheceu a unção que está sobre ela.

E é disso que estamos falando. Se você honra, você recebe.

Agora, quando você vai à casa da sua mãe, por exemplo, lá em Ribeirão Preto, você é o filho… não é o “pastor”. E isso revela um princípio espiritual muito importante: você só recebe daquilo que você enxerga.

Você só recebe o que você consegue ver.

Vou te contar um testemunho.

Quando entrei no ministério Sal da Terra, em 2016, eu não entendia muito sobre batismo. Apesar de já ter sido batizado lá, minha formação espiritual vinha da igreja presbiteriana, então eu via o batismo apenas como uma cerimônia para ser recebido na igreja.

Mesmo tendo ouvido explicações, eu não compreendia profundamente.

Até que o pastor Célio ministrou sobre isso. E naquele momento eu pensei: “Eu não entendo tudo… mas vou obedecer.”

Por quê?

Porque eu reconheci a unção na vida dele. Eu reconheci a sabedoria de Deus ali. Eu entendi que ele sabia do que estava falando.

E perceba: a unção que eu reconheci nele foi de sabedoria.

Eu poderia ter usado a lógica e pensar: “Ah, ele nem estudou muito… o que ele pode me ensinar?”

Mas eu não fiz isso. Eu não usei o intelecto. Eu não julguei pela aparência. Eu enxerguei com os olhos do espírito. E quando eu reconheci essa unção, algo aconteceu.

Depois, ao voltar para casa, orando em línguas, jejuando, começamos a ver o fluir dessa mesma unção. Começamos a batizar pessoas.

Isso é unção.

Tudo aquilo que você deseja já está disponível para você — gratuitamente.

Mas por que muitas pessoas não desfrutam?

Dois fatores principais: Primeiro: porque racionalizam demais. Querem entender tudo pela lógica, pelo intelecto.

Classificam ministérios com base em aparência, números, obras sociais… mas não discernem espiritualmente. E quem não discerne a unção… não recebe dela.

Segundo: porque tratam o espiritual como comum.

Quando você vê alguém apenas como “mais uma pessoa”, você fecha o fluxo.

Tudo que você honra, você recebe. Tudo que você julga… você se torna vulnerável àquilo. Observe isso: tudo que você critica, em algum momento, pode se manifestar na sua própria vida.

Quantas vezes alguém diz: “Eu nunca faria isso…” E depois se vê fazendo exatamente aquilo.

Por isso, hoje eu decidi: em vez de julgar, eu honro.

Existem duas formas de semear:

honra ou julgamento. Se você honra, você recebe. Se você julga, você bloqueia. Se você vê alguém com sabedoria — honre. Se vê alguém com dom de cura — honre. Se vê alguém com graça em alguma área — honre.

Mas se você julgar… o fluxo se fecha.

E isso é sério. Porque, quando você transforma alguém em “comum”, você perde o acesso àquilo que um dia você reconheceu nela.

E isso acontece com frequência. Pessoas se aproximam, recebem algo… mas com o tempo começam a olhar de forma natural: “Ah, ele é igual a todo mundo…”

E pronto. Perderam. Não porque a unção acabou. Mas porque deixaram de reconhecer.

Isso não é sobre idolatrar pessoas. É sobre discernir o que Deus colocou nelas. Até porque nenhum homem é perfeito. O único perfeito foi Jesus.

Mas a unção que Deus entrega a alguém continua operante.

Por isso, não caia nesse engano.

Existe até um livro chamado A Isca de Satanás, que fala exatamente sobre isso: a ofensa, o julgamento, a familiaridade… tudo isso é usado para cortar o fluxo espiritual.

Você precisa proteger o seu coração. Se alguém errar, isso pode afetar relacionamento, alinhamento, caminhada…mas não precisa afetar o seu discernimento espiritual. 

Aprenda isso: o que Deus colocou em alguém não deixa de existir por causa das falhas humanas.

E, se você um dia desejou aquilo que viu em alguém…no momento em que você o torna comum…você perde. Hoje, o problema de muitos cristãos é a incredulidade. E a incredulidade impede você de enxergar além do natural.

Por isso, muitas vezes, pessoas estão na mesma igreja, ouvindo a mesma palavra…Mas algumas recebem poder, cura, transformação…e outras não recebem nada.

Por quê?

Porque não é só ouvir. É crer, discernir e honrar. E quando isso acontece…o fluxo do Espírito se manifesta.

Porque, muitas vezes, você deu crédito àquilo que te fez cair…e não deu crédito àquilo que poderia te levantar.

Hoje, muitas pessoas avaliam ministérios pelo tamanho, pela visibilidade, pela evidência…pela prosperidade aparente na vida do ministro.

E entenda: isso não está totalmente errado. Essas coisas também podem ser sinais. Mas, se você olhar apenas para isso, pode perder algo poderoso que Deus colocou na vida de alguém que, aos seus olhos, parece “pequeno”.

Por isso, eu decidi não perder oportunidades. Já honrei pessoas que, externamente, não tinham nada impressionante…mas eu discerni o que Deus havia colocado nelas.

E eu pensei: “Isso que essa pessoa carrega… eu quero para a minha vida.”

E então, eu honrei.

Por quê?

Porque a unção flui na honra. A unção flui na sujeição. Honrar é se sujeitar. É assim que a unção é liberada.

Agora, quem vive julgando, criticando, atacando igreja, atacando pastores…essas pessoas dificilmente experimentam o sobrenatural.

A não ser que haja uma intervenção do Espírito Santo para mudar o coração delas. Mas, naturalmente, elas não experimentam.

E isso gera um ciclo: Elas não experimentam… então não creem.

Não creem… então não experimentam. E vivem presas nisso. Por isso, hoje eu te convido: Creia.

Como Jesus disse a Tomé: “Bem-aventurados os que não viram e creram.”

Saia desse lugar de dúvida constante. Vou te dar um exemplo muito prático. Se nós confiássemos em Deus da mesma forma que confiamos nos médicos…talvez experimentaríamos muito mais do sobrenatural.

Porque, quando um médico fala… ninguém questiona. Se ele diz: “Você tem isso, e vai tomar esse remédio três vezes por dia…” A pessoa obedece exatamente. Coloca despertador, segue horário, faz tudo com disciplina.

Agora, diga para essa mesma pessoa: “Ore em línguas três vezes por dia. Meia hora de manhã, meia hora à tarde, meia hora à noite.” 

Ela diz que não tem tempo.

Ela diz que não consegue.

E mais: você declara sobre ela que ela é curada, que ela é próspera…E ela não acredita.

Então a pergunta é: Em quem nós confiamos mais?

Muitos dizem: “Ah, mas Deus usa os médicos.” Sim, usa.

E ninguém está dizendo para não seguir um tratamento. Mas por que, quando se trata de fé…nós resistimos?

Por que não temos a mesma disciplina, a mesma entrega?

Você diz para alguém que ela é curada…e ela responde: “Um dia Deus vai me curar…”

Ou seja, ela ainda não creu.

Mas, se o médico diz: “Você tem uma doença grave…”

Na hora, ela entra em desespero. Ela acredita imediatamente.

Então perceba: Quando o médico fala, é verdade absoluta. Mas quando Jesus declara algo… nós duvidamos.

Está na hora de ajustar isso dentro de nós.

Nós acreditamos em tudo: noticiário, redes sociais, opiniões…Mas temos dificuldade de acreditar na Palavra.

É mais fácil para muitos acreditar em qualquer informação…do que crer que Jesus já realizou tudo na cruz.

Quando Ele disse: “Está consumado”…Não foi simbólico. Foi um decreto. E isso inclui tudo o que foi conquistado para nós. Mas por que não desfrutamos?

Porque damos mais crédito ao natural…do que ao espiritual. 

E enquanto isso não mudar…vamos continuar ouvindo… mas não vivendo.

Deus abençoe sua vida 

Leonardo Lima Ribeiro 



terça-feira, 7 de abril de 2026

Amadurecendo nosso chamado

Hoje vamos trabalhar dentro de um contexto muito real no corpo de Cristo. Quero que você participe: comente se concorda, se discorda, compartilhe sua experiência. Precisamos aprender a pensar, a raciocinar e a compreender os contextos. Muitas vezes repetimos crenças e entendimentos apenas porque ouvimos de alguém ou porque vivemos em determinado ambiente, sem realmente entender a profundidade daquilo que estamos dizendo.

Abra sua Bíblia em 2 Coríntios 11:23–28. O apóstolo Paulo está falando à igreja de Corinto. Quero tratar hoje sobre questões emocionais — o que tem feito muitas pessoas permanecerem anos na igreja sem avançar espiritualmente, sem amadurecer, e também o que tem levado outras, após experiências negativas, a se afastarem da comunhão.

O tema desta mensagem é: “A religiosidade impede o mover de Deus.”

Neste texto, Paulo faz uma defesa do seu apostolado, pois havia um grupo de líderes influenciando a igreja com doutrinas diferentes e tentando descredibilizá-lo. Então ele diz: “São ministros de Cristo? Falo como fora de mim. Eu ainda mais: em trabalhos muito mais; em prisões, muito mais; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes…”

E ele continua relatando tudo o que sofreu: açoites, prisões, perseguições, fome, frio, perigos diversos, além da pressão diária pelo cuidado com todas as igrejas.

E no versículo 30, ele conclui: “Se tenho de me gloriar, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza.”

Aqui está um ponto fundamental: Paulo não esconde a dor, mas também não romantiza o sofrimento.

Existe uma grande diferença entre expor uma fraqueza para glorificar a Deus e usar a dor para gerar pena ou autopromoção. Paulo não tenta parecer forte, nem se coloca como vítima. Ele apresenta suas limitações e sofrimentos para evidenciar que foi a graça de Deus que o sustentou.

Ou seja, ele transforma sua fraqueza em glória para Deus.

Por outro lado, há pessoas que romantizam o sofrimento — enfatizam a dor para despertar pena, para serem vistas como heróis ou como vítimas, buscando algum tipo de benefício emocional ou reconhecimento.

Paulo não faz isso. Ele não se exalta e não se vitimiza. Ele manifesta maturidade espiritual ao lidar com suas lutas.

E é exatamente aqui que entra um problema muito presente hoje.

Temos enfrentado uma grande dificuldade dentro da igreja: não é apenas a convivência com irmãos — porque isso aprendemos com o tempo, através do perdão, da compaixão e do entendimento de que todos somos imperfeitos.

O maior desafio tem sido a forma como muitos líderes têm se comportado.

A partir da minha experiência, inclusive atendendo pessoas, percebo algo preocupante: muitos chegam à igreja carregando feridas e acabam encontrando dentro dela os mesmos tipos de dores que já viveram no mundo. Sim, é normal encontrar pessoas imperfeitas na igreja. Isso é inevitável. Mas não podemos normalizar o fato de que líderes sejam responsáveis pela maior parte dessas feridas.

Nós, como líderes, precisamos assumir nossa responsabilidade. Precisamos amadurecer, ser curados emocionalmente, ter a mente transformada, para não ferirmos pessoas que Deus trouxe para serem restauradas.

Não podemos nos isentar dizendo: “Quem cura é Jesus, quem cura é o Espírito Santo.”

Se não temos responsabilidade nenhuma nesse processo, então por que as pessoas precisam estar na igreja?

Isso se torna incoerente.

Quando olhamos para Paulo, vemos alguém que sofreu profundamente — emocionalmente, fisicamente e espiritualmente —, mas que, ao final, não se exaltou nem se vitimizou. Ele glorificou a Deus, reconhecendo que foi a graça divina que o sustentou.

Isso revela maturidade. Paulo, já experiente no ministério, formado por anos de processo, conseguia comunicar uma mensagem firme, mas cheia de amor, demonstrando seu cuidado e entrega pela igreja.

E hoje enfrentamos outro problema: muitos recebem uma palavra profética, um chamado, e passam a acreditar que tudo acontecerá de forma imediata.

Deus fala hoje, e a pessoa quer abrir uma igreja amanhã. Mas não entende o processo. Não compreende que antes da realização do chamado, é necessário amadurecimento — emocional, espiritual e de caráter.

Sem esse processo, a pessoa pode até começar algo, mas não terá estrutura para sustentar. A partir disso, eu começo a observar dois tipos de comportamento dentro da igreja — especialmente em contextos que estão fora do padrão apresentado por Paulo.

Eu já vi dois tipos de igreja. Se você também já viu, reflita sobre isso.

O primeiro tipo é a igreja do pastor vitimista.

Esse líder se apresenta como alguém que sofre o tempo todo, como um coitado. Tudo na vida dele gira em torno da dor. Muitas vezes isso não é intencional, nem fruto de má fé. Na maioria dos casos, é resultado de feridas emocionais — deformações da alma que ainda não foram tratadas.Isso acontece porque essa pessoa não passou pelo processo de amadurecimento necessário. Ela entrou no ministério antes de estar pronta, antes de ser moldada por Deus.

Então surge a vitimização. O pastor começa a se posicionar como alguém que precisa ser carregado pela igreja. A ideia transmitida é: “Deus me chamou, então agora vocês precisam cuidar de mim.”

E, com isso, as pessoas passam a sentir pena. Criam uma visão distorcida, como se o chamado fosse um peso insuportável, quase um castigo.

Isso é muito comum, por exemplo, na forma como muitos enxergam missionários. Existe uma mentalidade de que o missionário precisa sofrer — dormir mal, comer mal, viver com escassez — e ainda fazer apelos emocionais para sobreviver.

E, quando ele tenta se posicionar de forma bíblica, como Paulo fez, ainda pode ouvir críticas como: “Vai trabalhar, porque Paulo trabalhou.”

Mas precisamos contextualizar isso. Quando analisamos as cartas aos Coríntios, vemos que Paulo fala claramente sobre a dignidade do trabalhador. Ele afirma que todo trabalhador é digno do seu salário e usa o exemplo: “Não amordace o boi enquanto ele debulha.”

Ou seja, quem vive para o evangelho tem o direito de viver do evangelho. Paulo ensinava que aqueles que são chamados integralmente devem se dedicar totalmente àquilo que Deus os chamou para fazer. E, por isso, é justo que sejam sustentados.

No entanto, ele mesmo decidiu, em alguns momentos, não exercer esse direito. Não porque não pudesse, mas por uma decisão pessoal, para não comprometer a mensagem. Ele inclusive cita outros exemplos, como Pedro, que era sustentado juntamente com sua família, e igrejas como Filipos, Tessalônica e Macedônia, que contribuíam financeiramente.

Já a igreja de Corinto, mesmo sendo rica, retinha recursos — e, pior, sustentava outros líderes que Paulo chama de “superapóstolos”.

Isso nos leva ao segundo tipo de igreja: O extremo oposto — o pastor super-herói.

Esse líder não se vê como vítima, mas como alguém extraordinário, acima dos outros. Ele se enxerga como alguém especial demais, quase inalcançável. É a síndrome de superioridade.

Se o primeiro vive na inferioridade, este vive na exaltação.

Ambos estão desequilibrados. Paulo, porém, apresenta um modelo completamente diferente. Ele nos mostra o equilíbrio do chamado. Ele reconhece as dificuldades, mas não se prende a elas. Ele entende que, em Cristo, somos mais que vencedores — não porque não enfrentamos dores, mas porque somos sustentados por Deus nelas.

Hoje, muitas vezes enfatizamos apenas o lado triunfante da igreja — e isso é bíblico. A igreja é, sim, triunfante. Mas isso não significa que deixamos de ser humanos.

Temos emoções, sentimentos, limitações.

Nossa vitória está em Cristo. Nossa perfeição está em Cristo — não em nós mesmos.

Por isso Paulo declara: “Se tenho que me gloriar, eu me glorio no Senhor.”

Em outro momento, ele reforça: “Se tudo que tenho veio de Deus, por que me gloriaria em mim mesmo?”

Assim, uma igreja fora da mente de Cristo oscila entre esses dois extremos:

— o líder que se vê como vítima do chamado

— e o líder que se vê como um super-herói

No contexto de Corinto, Paulo estava lidando exatamente com esse segundo caso. Os chamados “superapóstolos” eram líderes que se apresentavam com aparência de sucesso, glamour e influência — algo que impressionava os coríntios.

Eles eram admirados pela imagem que transmitiam. E então começaram a comparar esses líderes com Paulo. Antes de sua conversão, Paulo tinha tudo para ser admirado: era fariseu, intelectual, influente, respeitado socialmente, provavelmente com estabilidade financeira e grande reconhecimento religioso.

Ele tinha todas as credenciais humanas. Mas, após conhecer a verdade, tudo isso perdeu valor.

O próprio Paulo declara que considerou tudo aquilo como “lixo”, para ganhar a Cristo. Sua confiança deixou de estar em suas credenciais e passou a estar na revelação de Cristo.

A verdade se tornou sua única base. E isso teve um custo. Paulo deixou de ser influente socialmente. Foi perseguido, preso, rejeitado. Ganhou “credenciais” como prisioneiro, criminoso e foragido. Foi açoitado, apedrejado e perseguido principalmente pelos próprios judeus, ao anunciar que Cristo era o cumprimento daquilo que eles esperavam.

E, mesmo assim, ele permaneceu firme. Mas observe algo importante: no final da vida, Paulo não tinha mais popularidade. Não tinha seguidores, nem apoio em massa. Estar ao lado dele significava correr riscos reais — rejeição social, perda de oportunidades, perseguição.

Seguir Paulo tinha um preço. E é aqui que precisamos refletir sobre a igreja de hoje. Muitas vezes chamamos as pessoas para a igreja sem preparar o ambiente para recebê-las.

Dizemos: “Venha para a igreja, lá você será ajudado.”

Mas quem é responsável por estruturar esse ambiente de cura?

A liderança.

A mentalidade, a compaixão, o cuidado — tudo isso é responsabilidade pastoral.

No entanto, o que muitas pessoas encontram ao pedir ajuda?

Reprovação. Elas chegam feridas, pedindo socorro, e ouvem: “Você é imaturo.”; “Você é muito ferido.”

Ou seja, a pessoa pede ajuda e ainda é julgada por precisar de ajuda. Eu falo isso não para acusar, mas para edificar. Para que haja arrependimento e transformação.

Eu mesmo vivi isso.

Venho de um contexto de dependência emocional. Quando cheguei à igreja, buscava conexão com as pessoas, muitas vezes sem perceber que estava, na verdade, pedindo socorro.

O dependente emocional carrega inseguranças, medos, traumas. E Deus quer restaurar nossa identidade.

Sim, quem cura é o Espírito Santo. Mas quem conduz nesse processo, especialmente no início da fé, são pessoas mais maduras — líderes que compreendem a dor do outro.

E, às vezes, o que alguém mais precisa ouvir é algo simples, mas poderoso: “Eu compreendo a sua dor.”

“Eu compreendo a sua dor.”

Essa é uma frase simples, mas extremamente poderosa — e, infelizmente, pouco ouvida.

Por que ninguém fala isso?

Porque, muitas vezes, estamos inseridos em dois tipos de ambiente: ou em um contexto onde o pastor é mais vítima do que você — e, no final, é você quem precisa ajudá-lo —, ou em um ambiente onde o pastor se vê como um super-herói, e a resposta que você recebe é: “Levanta, coloca a capa e segue em frente.”

Mas quem foi chamado para cuidar de pessoas precisa entender algo fundamental: cuidar exige compreensão. Talvez — e digo talvez, porque não conheço plenamente os caminhos de Deus — eu tenha vivido uma vida tão complexa justamente para isso.

Muitas pessoas me perguntam: “Mas você teve uma vida boa?”

Sim, nunca me faltou nada. Meus pais sempre me deram o melhor, são exemplos extraordinários. O problema nunca foram eles.

Mas, ainda assim, minha vida foi marcada por complexidade desde cedo. Isso gerou confusão de identidade, crises profundas, quase morte, envolvimento com drogas e álcool — experiências que destruíram completamente minha capacidade de me enxergar como pessoa.

Quando Jesus me alcançou, começou um processo de restauração.

O Espírito Santo passou a trabalhar em mim, trazendo verdade ao meu coração, curando dores, reconstruindo minha identidade. E, a partir disso, eu comecei a entender que minhas fraquezas poderiam glorificar a Deus — não pela dor em si, mas pela graça que me sustenta nela.

E isso também me permite ajudar outras pessoas a serem compreendidas e a caminharem nesse processo de fé e transformação.

Mas eu não ouvi isso de ninguém.

Não digo isso para culpar pessoas, mas para expor uma realidade.

Hoje, ainda que existam boas igrejas e bons líderes — e eu posso recomendar alguns —, não são tantos quanto deveriam ser. Em muitos lugares, você vai buscar ajuda e encontra alguém que ainda não compreendeu sua própria identidade em Deus.

Então você pede socorro a alguém que está emocionalmente mais ferido do que você.

Esse líder acredita que foi chamado apenas para sofrer. Ele ainda não entendeu que é justamente nas dores que Deus manifesta graça e libera dons para edificar outras pessoas. Como está escrito: quando somos fracos, então é que somos fortes, porque o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza.

Por outro lado, existe o outro extremo: a igreja do triunfalismo e do glamour.

Nesse ambiente, parece que não existe sofrimento. E, se você está sofrendo, o problema é você.

Se você não prosperou, a culpa é sua. Se não foi curado, a culpa é sua. Se não avançou, a culpa é sua.

Mas a pessoa já chegou na igreja carregando culpa, medo, insegurança.

E, quando ela abre o coração, dizendo que não sabe lidar com suas emoções, o que ela ouve é: “Esquece isso, levanta e segue.” O problema é que maturidade não nasce pronta.

Hoje, talvez você lide melhor com dores que antes te paralisavam. Mas isso só aconteceu porque houve um processo. E muitas pessoas ainda não sabem lidar com essas questões.

Foi assim comigo também.

Quando comecei a trabalhar como terapeuta, enfrentei rejeição. Eu mesmo já tive preconceito com terapia. Hoje entendo melhor.

Terapia é, essencialmente, tratamento.

Quando assumi essa função, entendi que ali não era o momento de pregar, mas de ouvir.

Ouvir intencionalmente.

Não para reforçar a dor, nem para alimentar vitimismo, mas para ajudar a pessoa a enxergar a verdade que cura — e essa verdade é Cristo.

A terapia oferece algo que muitas pessoas nunca tiveram: alguém disposto a escutar com atenção e propósito.

E isso tem feito diferença. Porque, infelizmente, muitos líderes hoje estão mais preocupados com o crescimento numérico da igreja do que com o crescimento das pessoas.

Quantas vezes já ouvi relatos como:

“Meu pastor não tem tempo para me ouvir.”

“Quando ele me ouve, eu saio pior.”

E isso acontece porque, muitas vezes, a pessoa recebe respostas duras sem que sua condição emocional seja considerada.

Mas alguém que já está ferido precisa primeiro ser acolhido, compreendido e conduzido com sabedoria.

A função pastoral é ajudar a pessoa a sair da condição de bloqueio — seja ele causado por medo, insegurança ou vitimismo.

E isso se faz com a Palavra de Deus.

Mas aqui há um alerta importante: A Palavra pode ser usada para curar — ou para ferir.

O próprio Paulo, antes de conhecer a Cristo, usou o conhecimento da Palavra para perseguir, prender e causar dor.

Hoje, ninguém está matando fisicamente como naquela época, mas existe morte emocional e espiritual acontecendo.

Quando a Palavra é usada para gerar medo, condenação ou opressão, ela está sendo mal aplicada.

E isso também destrói. É possível matar uma pessoa fisicamente, emocionalmente e espiritualmente.

E, infelizmente, muitos têm sido feridos dessa forma. Ao longo do tempo, comecei a atender pessoas também como uma forma de sustento, sem precisar pressionar ninguém a contribuir financeiramente. As ofertas continuam acontecendo de forma voluntária, e eu passei a trabalhar de outras maneiras, utilizando as capacidades que Deus me deu.

E, nesse processo, comecei a perceber algo preocupante: Ansiedade, depressão, desânimo, sentimento de incapacidade e frustração têm afastado muitas pessoas da igreja.

Algumas ainda frequentam, mas muitas já desistiram completamente.

Se formos pensar em proporção, de cada grupo de pessoas que conheço, uma parte significativa não quer mais congregar. Assistem conteúdos online, se relacionam à distância, mas não conseguem se comprometer com uma comunidade.

E o motivo quase sempre é o mesmo: feridas.

Mas essas pessoas não serão ajudadas se continuarmos rotulando-as como fracas ou problemáticas.

Precisamos perguntar: 

Será que não existe uma forma diferente de pastorear essas pessoas até que sejam curadas?

Será que todo modelo precisa ser o mesmo?

Hoje há discussões sobre igreja física, igreja online, formas de congregação…Mas, na prática, cada contexto funciona de uma maneira.

O problema é quando alguém acredita que o seu modelo é o único correto.

Enquanto isso, muitas pessoas estão sendo cuidadas nos bastidores — longe dos púlpitos — e sendo restauradas gradualmente.

E, quando essas pessoas são curadas, elas passam a desejar comunhão de forma saudável.

Elas entendem suas limitações, mas agora possuem maturidade para lidar com elas.

Infelizmente, muitos líderes ainda não estão preparados para isso. Não porque não possam ser, mas porque, muitas vezes, entraram no ministério antes de amadurecer.

Querem uma igreja grande, mas não se perguntam:

“Tenho estrutura emocional e espiritual para isso?”

Liderar pessoas exige preparo. Formar líderes exige maturidade. Sem isso, a igreja pode até crescer, mas se torna apenas uma estrutura — sem propósito claro.

E então surge uma pergunta importante:

Qual é o objetivo da igreja?

Muitas vezes respondemos: “Anunciar Jesus.”

Mas isso ainda é muito abstrato.

A igreja existe para as pessoas.

Cristo não precisa da igreja — nós precisamos.

A igreja foi estabelecida para que possamos nos relacionar, crescer e ser transformados juntos.

Cristo é revelado nas pessoas — não nas estruturas.

Não nas paredes, nem no dinheiro, nem no púlpito.

Cristo é revelado em nós.

E, quando Ele é revelado em nós, Deus é glorificado.

Pregar o evangelho não é apenas falar — é viver.

Você pode ser médico, advogado, padeiro, ou trabalhar em qualquer área — e ainda assim pregar o evangelho com a sua vida.

A palavra “mártir” significa testemunha.

E testemunhar é viver de forma que Cristo seja visto em você.

Por isso, não podemos impor nossa forma de viver o evangelho sobre os outros.

Cada pessoa tem um chamado, uma identidade, uma forma única de expressar aquilo que Deus colocou dentro dela.

O erro é acreditar que o nosso modelo é o padrão para todos.

Porque Deus criou cada pessoa de forma única. Não existem duas pessoas iguais. Cada identidade carrega uma expressão singular daquilo que Deus quer revelar ao mundo.

Deus fez você de forma única para que você entenda que Ele te chama pelo seu nome. Ele não fala com você como se fosse um número ou apenas um resultado. Ele te chama de filho, mas também te deu um nome — Ele te conhece pessoalmente.

Quando começamos a trabalhar dentro desses movimentos, percebemos que, vez ou outra, alguém acaba caindo, se desviando, se quebrando no processo. Isso acontece porque as pressões que estamos colocando sobre as pessoas muitas vezes não são as mesmas que Jesus colocou. Nós pressionamos porque queremos resultados para o nosso ministério.

E eu me incluo nisso. Estou falando como parte do corpo de Cristo. Queremos resultados — e, de certa forma, ninguém gera resultados sozinho. Seja empresário, pastor ou qualquer outra função, quando algo cresce, é necessário envolver outras pessoas. E, para continuar crescendo, surge a tendência de pressionar.

O problema é que, muitas vezes, a carga que colocamos nas pessoas não vem de Deus, mas das nossas próprias expectativas — do lugar onde queremos chegar. Em vez de discernir onde Deus quer levar cada pessoa, começamos a usar pessoas para cumprir nossos próprios propósitos.

Mas o corpo de Cristo não é uma corporação. Não é uma empresa capitalista que precisa crescer a qualquer custo. O crescimento do corpo de Cristo é orgânico, acontece por meio da comunhão — como vemos em Atos. A Bíblia diz claramente: “E Deus acrescentava os que iam sendo salvos”.

Ou seja, quem acrescenta é Deus.

O crescimento verdadeiro acontece de forma natural: alguém convida um vizinho, outro é impactado pelo testemunho de alguém, e assim o Reino vai avançando. Existe, sim, o ardor do Espírito Santo em algumas pessoas para alcançar mais vidas — e isso é legítimo. Mas também existe a vaidade humana, que busca reconhecimento e evidência.

E muitas vezes, essa vontade de crescer não é amor pelas pessoas, mas desejo de destaque.

Isso não é algo específico de alguém — é da natureza humana. É a vaidade. É a tentativa de chegar em um lugar onde Deus já nos colocou. No fim das contas, Deus nunca perde. Nada pode impedir o que Ele determinou.

Se confiarmos nEle, o Espírito Santo — que produz tanto o querer quanto o realizar — nos conduzirá. E quando fazemos algo em Deus, há convicção. Nem todos os dias serão fáceis, nem todos os dias teremos alegria, mas a convicção nos sustenta.

Outro erro comum é exigir das pessoas uma vida constante de perfeição espiritual — como se não existissem dias maus. Mas a própria Bíblia fala sobre o “vale da sombra da morte”. Existem momentos difíceis, e eles fazem parte do processo.

No entanto, em ambientes triunfalistas, quando alguém passa por esses momentos, é julgado e condenado. Dizem que falta oração, falta jejum, falta fé. Mas nem sempre é isso. Às vezes, é simplesmente o vale — e é depois dele que Deus prepara a mesa e unge a cabeça.

Por isso, tudo o que está sendo dito aqui não é uma verdade absoluta, mas um convite à reflexão:

Em que ambiente você está?

O que você tem cobrado de si mesmo?

Isso vem de Deus ou das suas próprias expectativas?

A graça de Deus cobre aquilo que Ele nos chamou para fazer. Fora disso, entramos no esforço humano — e isso nos leva aos extremos: a igreja vitimista ou a igreja triunfalista distorcida.

A igreja vitimista vive em constante sensação de perseguição, enquanto a triunfalista ignora o sofrimento e vende uma imagem irreal da vida cristã.

Mas a proposta de Cristo não é nenhuma dessas. A prosperidade, por exemplo, não é para ostentação, mas para generosidade. O que glorifica a Deus não é mostrar conquistas, mas viver uma vida transformada que abençoa outros.

Essas distorções já existiam desde a igreja primitiva. Em Segunda Carta aos Coríntios, capítulo 11, Paulo confronta os chamados “superapóstolos”, que aparentavam mais autoridade, mais influência, mais “imagem”.

Enquanto isso, Paulo não tinha essa aparência. Ele não tinha “branding”. E, por isso, foi descredibilizado.

Mas ele deixa claro: tudo o que ele era antes, considerou como lixo, para que somente Cristo fosse revelado nele.

Isso continua acontecendo hoje. Por isso, você que foi ferido na igreja, entenda: falharam com você. Mas isso não define o que a igreja é.

Existem pessoas no corpo de Cristo que Deus levantou para ouvir, compreender e conduzir você à cura — que vem por meio de Jesus.

Não deixe uma experiência negativa afastar você da comunhão. Ao mesmo tempo, nós, como líderes, precisamos amadurecer. Precisamos aprender a ouvir, a guardar confidências, a não expor as pessoas. Fofoca, divisão e falta de cuidado são coisas que destroem vidas.

Muitas pessoas deixaram de confiar porque foram expostas ou não foram ouvidas.

E isso precisa mudar. Nem tudo se resolve apenas entre você e Deus. Há coisas que Deus trata em nós através dos relacionamentos. Por isso existe o corpo de Cristo.

Mas isso exige sabedoria, paciência e amor.

Nosso papel não é simplesmente pregar e deixar as pessoas se virarem sozinhas. É caminhar junto, entender o tempo de cada um, saber quando corrigir e quando acolher. E talvez, às vezes, tudo o que alguém precisa ouvir é:

“Eu te entendo. Eu sei o que você está sentindo.”

Isso já pode iniciar um processo de cura.

Deus te abençoe 

Leonardo Lima Ribeiro 

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