Essa cultura humana de não valorizar aquilo que é de graça tem levado muitas pessoas a um caminho de luta e sofrimento desnecessários.
Desde o primeiro momento em que me converti, comecei a ouvir inúmeros jargões do meio cristão. Um deles era muito comum: quando você encontrava um irmão e perguntava como ele estava, a resposta vinha quase automática:
“Tô só a graça.”
Essa expressão, embora pareça espiritual, revela algo mais profundo: muitas vezes ela carrega a ideia de que viver pela graça é viver sempre cansado, sempre lutando, sempre suportando peso, como se a vida cristã fosse sinônimo de desgaste constante.
Aos poucos, fomos aprendendo a associar a graça não com descanso, mas com sobrevivência. Não com alegria, mas com resistência. Não com liberdade, mas com esforço contínuo.
Isso mostra como, sem perceber, podemos transformar a graça — que é presente de Deus — em um fardo humano. Quando não compreendemos o valor do que é dado gratuitamente, passamos a tentar conquistar com sacrifício aquilo que já nos foi oferecido por amor.
A graça não nos chama para uma vida de exaustão, mas para uma vida de descanso em Cristo.
Não é “tô só a graça” como quem diz “estou aguentando”.
É “estou na graça” como quem diz “estou seguro, amado e sustentado”.
E, com o passar do tempo, eu comecei a me perguntar: “Senhor, se falam tanto e ministram sobre a graça, como eles realmente a entendem?”
Percebi que, muitas vezes, a graça, na forma como é expressa, soa como um peso.
Por exemplo: “Já fiz de tudo… agora é só a graça.”
Ou seja, como se dissesse: não há mais o que fazer, vou apenas esperar um pouco mais. A graça passa a ser vista como último recurso, e não como fundamento da vida cristã.
Eu mesma levei anos para compreender o que significa dizer que o amor de Deus é incondicional.
A Palavra diz: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
Você já imaginou o tamanho desse amor? Creio que não conseguimos mensurá-lo plenamente.
Esse amor não nasce do nosso esforço, nem da nossa performance espiritual. Ele nasce do coração de Deus. A graça não é um peso para quem já tentou tudo; é um presente para quem reconhece que nada poderia conquistar por si mesmo.
Compreender isso transforma nossa maneira de viver: não caminhamos mais por obrigação, mas por gratidão.
Não vivemos mais tentando merecer, mas aprendendo a receber. E quando não temos a revelação desse amor, nós sofremos.
Podemos ver isso muitas vezes no casamento e nos relacionamentos: quando apenas um ama, mas a outra parte despreza e banaliza esse amor. Chega um ponto em que o relacionamento se rompe, não porque faltou amor, mas porque não houve abertura para recebê-lo.
A Palavra nos lembra: “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com Ele todas as coisas?”
Essa é a palavra de Deus a nosso respeito.
No entanto, muitas vezes escolhemos outro caminho: preferimos lutar sozinhos, fazer força, provar para nós mesmos que somos fortes.
Saímos mundo afora pedalando, caindo e levantando, repetindo frases como: “O cair é do homem, mas o levantar é de Deus”, parafraseando o Salmo 145:14, que diz:
“O Senhor sustém todos os que caem e levanta todos os abatidos.”
Mas usamos esse versículo, muitas vezes, para justificar uma vida baseada apenas no esforço humano, quando, na verdade, ele revela um Deus que sustenta, ampara e levanta aqueles que reconhecem sua dependência.
Preferimos a força ao descanso.
Preferimos o mérito à graça.
Preferimos provar que somos capazes, em vez de aceitar que somos amados.
E assim, transformamos o amor de Deus — que é oferta — em uma batalha constante, quando Ele sempre nos chamou para viver a partir da revelação do Seu amor, e não da nossa resistência.
Quando, na verdade, o Senhor já foi erguido na cruz por nós.
Todo esse sofrimento nasce da falta de entendimento da graça redentora. Então, depois que nossas forças se esgotam, chegamos a Deus fazendo votos — votos de tolos: “Se o Senhor me tirar dessa situação, eu vou fazer isso… vou fazer aquilo…”
(risos)
Mas a verdade é que o Senhor nunca nos pediu barganha alguma. Ele simplesmente nos amou.
E então começam os testemunhos: “Entreguei a minha vida… renunciei tudo…”
E eu pergunto:
Que vida? Que tudo?
Se muitas vezes estávamos no fundo do poço. Talvez financeiramente estivéssemos bem, mas por dentro havia um grande vazio.
Chamamos de entrega aquilo que, na verdade, já estava quebrado.
Chamamos de renúncia aquilo que já não nos sustentava mais.
A graça não começa quando decidimos dar algo a Deus, ela começa quando percebemos que Ele já deu tudo por nós.
Não foi nossa renúncia que nos salvou. Foi o amor d’Ele. Não foi nossa força que nos levantou.
Foi a cruz.
A verdade é que não estamos preparados para receber esse amor por causa do nosso eu, da nossa justiça própria. O desprezo pelas coisas que nos são oferecidas gratuitamente acabou se estendendo também à mensagem da cruz.
Hoje, quando alguém apresenta essa mensagem, logo se ouve:
“Não… deixa para a próxima vez.”
E, no íntimo, a pessoa pensa:
“Preciso primeiro parar de fumar, parar de beber, mudar minhas vestes, mudar meu comportamento…”
Mas Jesus não nos pediu nada disso. Mais uma vez, Ele simplesmente nos amou.
Não porque merecíamos, mas porque a graça do Senhor é suficiente.
Quando Jesus disse a Paulo: “A minha graça te basta”,
Ele estava dizendo:
A graça é tudo. Jesus é tudo.
Não é a mudança exterior que nos aproxima de Deus; é o amor d’Ele que nos transforma por dentro.
Por isso a Palavra nos adverte em Hebreus 3:7–8: “Por isso, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como na rebelião, no dia da provação no deserto.”
O endurecimento do coração acontece quando adiamos a graça, quando achamos que precisamos nos consertar primeiro para depois nos aproximar de Deus.
Mas a cruz nos chama hoje.
A graça é para agora.
Sara Oliveira Ribeiro
O amor é para ser recebido, não negociado.

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