Pai, glorifica o teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique. (João 17:1)
Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar." (João 16:14)
Até aqui vimos que a honra está presente na criação, na história de Israel e na vida de Jesus.
Entretanto, ainda permanece uma pergunta.
Quando a honra começou?
A resposta surpreende.
Ela não começou na criação.
Também não começou com os anjos.
Nem com o homem. Nem com o universo. A honra é anterior ao tempo. Ela existe porque Deus existe. Isso significa que a honra não é apenas um mandamento divino. Ela é um atributo relacional do próprio Deus. Antes que existisse qualquer criatura para honrar o Criador, já existia perfeita honra entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Essa afirmação muda completamente nossa compreensão do tema.
A honra não nasceu da necessidade.
Nasceu do amor eterno.
Deus Nunca Esteve Sozinho
O primeiro versículo da Bíblia já apresenta um mistério. "No princípio criou Deus..." (Gn 1:1)
A palavra hebraica utilizada para Deus é אֱלֹהִים (Elohim)
Embora normalmente acompanhe verbos no singular quando se refere ao Deus de Israel, sua forma é plural. Isso, por si só, não prova a doutrina da Trindade, mas prepara o leitor para a revelação progressiva de que há uma pluralidade de pessoas na unidade do único Deus.
Mais adiante lemos: "Façamos o homem à nossa imagem..." (Gn 1:26)
No Novo Testamento, essa revelação torna-se clara.
O Pai cria por meio do Filho, no poder do Espírito Santo.
A comunhão precede a criação. O relacionamento precede o universo. O amor é anterior ao tempo. Da mesma forma, a honra também é.
A Honra Existe Porque Existe Amor
O apóstolo João faz uma das declarações mais profundas da Bíblia: "Deus é amor." (1 João 4:8)
Observe cuidadosamente. João não diz apenas que Deus ama. Ele diz que Deus é amor. Essa afirmação possui enormes implicações. O amor exige relacionamento. Não existe amor isolado. Antes da criação, o Pai amava o Filho.
O Filho amava o Pai. O Espírito Santo participava dessa perfeita comunhão. A honra nasce exatamente desse amor. Não como obrigação. Mas como expressão natural da comunhão divina.
O Pai Honra o Filho
Uma das grandes ênfases do Evangelho de João é mostrar a relação entre o Pai e o Filho.
Jesus declara: "O Pai ama o Filho..." (João 3:35)
Em outra ocasião afirma: "O Pai entregou todas as coisas nas mãos do Filho."
Depois diz: "Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou." (João 5:23)
Essa declaração é extraordinária. Honrar o Pai exige honrar o Filho. Por quê? Porque ambos compartilham a mesma natureza divina. O Pai glorifica o Filho. Não por obrigação. Mas por amor eterno.
O Filho Honra o Pai
Da mesma maneira, Cristo vive para glorificar o Pai.
Observe quantas vezes Jesus afirma: "Eu vim fazer a vontade do Pai." "Minha comida é fazer Sua vontade." "Eu não busco minha própria glória." "Tudo quanto faço procede do Pai."
Essas declarações revelam algo profundo.
A submissão do Filho ao Pai não decorre de inferioridade de essência. Ela expressa a ordem das relações dentro da Trindade e a missão assumida pelo Filho na encarnação. O Filho é plenamente Deus. Compartilha a mesma natureza divina do Pai. Contudo, na economia da salvação, assume voluntariamente a posição de Servo.
A honra, portanto, nunca diminui quem honra. Ela revela a perfeição do amor.
O Espírito Santo Honra o Filho
Muitas vezes esquecemos do Espírito Santo ao estudar esse tema.
Entretanto, Jesus afirma claramente: "Ele me glorificará." (João 16:14) O ministério do Espírito não consiste em atrair atenção para Si mesmo. Ele aponta para Cristo. Ele revela Cristo. Ele exalta Cristo. Isso não significa que o Espírito seja inferior ao Filho.
Significa que existe perfeita harmonia em Sua missão.
Cada Pessoa glorifica as outras sem competir por reconhecimento.
A Trindade Nunca Compete
Um dos maiores problemas da humanidade é a competição por honra.
Desde Caim. Desde Babel. Desde os discípulos discutindo quem seria o maior. O pecado sempre gera competição. A Trindade revela exatamente o oposto. Não existe rivalidade. Não existe inveja. Não existe autopromoção. Não existe disputa por poder.
O Pai glorifica o Filho. O Filho glorifica o Pai. O Espírito glorifica o Filho. Todos compartilham a mesma glória divina. Todos possuem a mesma essência. Todos agem em perfeita unidade. Essa é a primeira comunidade perfeitamente honrada do universo.
O Pecado é Uma Ruptura da Honra
Quando Satanás diz: "Subirei ao céu..." Ele não deseja apenas poder. Deseja a honra que pertence exclusivamente a Deus. Quando Adão decide comer do fruto. Deseja autonomia. Deseja definir o bem e o mal independentemente do Criador. Quando Babel constrói sua torre. Busca fazer um nome para si. Em todos os casos, a desonra consiste em retirar Deus do centro.
O pecado não é apenas quebrar mandamentos. É deslocar a honra devida ao Senhor.
A Igreja Reflete a Comunhão da Trindade
Jesus ora em João 17: "Para que todos sejam um, como nós somos um."
Observe. Ele não pede uniformidade. Pede unidade. A igreja não é chamada a reproduzir uma organização. É chamada a refletir a comunhão do Deus trino. Quando irmãos competem, dividem-se ou vivem em orgulho, deixam de refletir o caráter de Deus.
Quando vivem em amor, serviço e honra mútua, tornam visível a realidade da Trindade.
A honra, portanto, não é apenas uma virtude ética.
Ela é uma expressão da vida divina comunicada ao povo de Deus.
A Honra Como Movimento de Doação
Há um detalhe fascinante. Em toda a Escritura, a verdadeira honra nunca é autocentrada. Ela sempre se move em direção ao outro.
O Pai entrega o Filho. O Filho entrega Sua vida. O Espírito entrega Seus dons à Igreja. O Reino inteiro funciona por meio da doação.
A desonra pergunta: "O que posso receber?"
A honra pergunta: "O que posso oferecer para a glória de Deus e o bem do próximo?"
Esse é o movimento da cruz.
A Glória Compartilhada
Em João 17:22, Jesus faz uma afirmação surpreendente: "Eu lhes dei a glória que me deste." Isso não significa que os cristãos recebem a divindade. Significa que são chamados a participar da vida de Deus, refletindo Seu caráter e sendo transformados à imagem de Cristo. A honra, nesse contexto, deixa de ser apenas um dever moral. Ela se torna uma participação na comunhão do Deus trino. Quanto mais nos conformamos a Cristo, mais aprendemos a honrar como Ele honra.
A honra não nasceu na terra.
Ela nasceu na eternidade.
Antes da criação do universo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo já viviam em perfeita comunhão, amor e glorificação mútua.
A criação apenas refletiu essa realidade. A queda rompeu esse reflexo. Cristo veio restaurá-lo. Por isso, quando a Igreja aprende a viver em honra, ela não está apenas obedecendo a um mandamento. Ela está refletindo, ainda que de forma imperfeita, a beleza da vida do próprio Deus.
Toda verdadeira honra começa no Pai, é revelada no Filho, é aplicada pelo Espírito Santo e retorna, para sempre, à glória do Deus Triúno. A história da redenção é, em última análise, a história do Deus que convida seres humanos marcados pela desonra do pecado a participarem da comunhão eterna de Sua honra e de Sua glória.
Deus vos abençoe
Leonardo Lima Ribeiro

Nenhum comentário:
Postar um comentário