Todos os dias, quando me sento à mesa, tenho percebido que a mesa pode ser muito mais do que um lugar para fazer uma refeição.
Foi sentada à mesa que comecei a me lembrar de tantas mesas pelas quais passei ao longo da minha vida. Mesas da minha infância, mesas da minha casa, mesas com meus filhos, mesas com amigos, mesas com familiares, mesas em viagens, mesas com pessoas que conheci pela primeira vez e, principalmente, a mesa que todos os dias compartilho com meu esposo.
E comecei a perceber algo que talvez sempre estivesse diante dos meus olhos, mas que somente agora meu coração conseguiu enxergar: Deus também nos ministra à mesa.
Nós não nos sentamos à mesa apenas para comer. Muitas vezes, sentamos para aprender. Para ouvir. Para repartir. Para sermos confrontados. Para sermos consolados. Para rir. Para chorar. Para contar histórias. Para conhecer pessoas. Para sermos conhecidos.
A mesa é um lugar de comunhão.
E a comunhão, quando existe amor e abertura para Deus, torna-se também um lugar de edificação.
A mesa que Deus prepara
Existe uma imagem muito forte nas Escrituras: Deus preparando uma mesa.
O salmista declara: “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos.” Salmo 23:5
A mesa preparada por Deus fala de provisão, mas não somente de provisão material. Ela fala de cuidado, presença, honra, pertencimento e relacionamento.
Deus não quer apenas colocar algo em nossas mãos. Muitas vezes, Ele quer nos colocar ao redor de uma mesa. Porque há coisas que Deus não nos ensina somente através de uma pregação. Há coisas que aprendemos olhando alguém viver. Há princípios que são transmitidos enquanto partilhamos uma refeição.
Há cura que começa quando alguém encontra um ambiente seguro para contar sua história.
Há instrução que chega no meio de uma conversa aparentemente simples. Há revelações que nascem enquanto pessoas diferentes se sentam juntas e descobrem que, apesar das suas histórias, culturas e experiências, pertencem ao mesmo Corpo.
Por isso, talvez devêssemos olhar novamente para as nossas mesas.
Quem tem se sentado conosco? O que temos repartido? O que as pessoas encontram quando se sentam à nossa mesa?
Porque uma mesa pode alimentar o corpo e, ao mesmo tempo, alimentar a alma.
As mesas da nossa história
Quando penso nas mesas em que me sentei, percebo que muitas delas carregavam algo que não estava no prato. Havia amor. Havia histórias. Havia testemunhos. Havia lágrimas. Havia aprendizado. Havia presença.
Na nossa casa, por exemplo, a mesa com nossos filhos nunca foi apenas o lugar onde colocávamos comida. Foi também um lugar onde valores eram transmitidos, onde conversávamos, onde ensinávamos, onde ouvimos e fomos ouvidos.
E quantas vezes uma conversa à mesa nos ensinou mais do que imaginávamos?
Quantas vezes nossos filhos aprenderam observando nossa maneira de conversar, perdoar, respeitar, discordar e amar?
Quantas vezes nós mesmos fomos ensinados por eles?
Porque a mesa não é apenas um lugar onde os pais ensinam os filhos. É um lugar onde todos podem ser ensinados. Também penso nas mesas com amigos e familiares. Algumas foram simples. Outras foram especiais. Algumas tiveram comidas elaboradas; outras tiveram apenas aquilo que havia disponível naquele momento.
Mas hoje entendo que o valor daquela mesa nunca esteve naquilo que foi servido. Estava em quem estava sentado ao redor dela e no que estava sendo repartido entre nós.
Uma mesa na Albânia
Uma das lembranças que guardo com carinho aconteceu na Albânia.
Em uma das nossas viagens, tivemos a oportunidade de nos sentar à mesa na casa de uma missionária que nos recebeu com amor. Seu nome, Najua, ficou marcado em nossa memória não apenas pela comida maravilhosa que preparou, mas por aquilo que aconteceu enquanto estávamos ali.
Ela serviu uma comida preciosa da sua cultura. Nós comemos. Conversamos. Rimos. Conhecemos um pouco mais daquela realidade. Mas, enquanto aquela refeição era compartilhada, algo muito maior estava acontecendo. Aquela mulher estava repartindo conosco mais do que comida. Ela estava repartindo sua vida. Sua experiência com Deus. Sua história. Sua cultura. Aquilo que Deus havia construído nela. E talvez seja isso que torne algumas mesas inesquecíveis.
Não nos lembramos apenas do sabor da comida.
Lembramo-nos do amor com que fomos recebidos. A comida alimentou o nosso corpo, mas a comunhão alimentou o nosso espírito. Foi uma mesa simples, mas carregada de significado. E hoje consigo olhar para aquela experiência e perceber: Deus também estava nos ensinando ali.
Quando diferentes nações se sentam à mesma mesa
Ainda na Albânia, em outro momento, participamos de um encontro de líderes. Havia uma grande mesa, e ao redor dela estavam pessoas de diferentes nações, culturas, histórias e expressões cristãs. Era uma cena que, para mim, dizia muito sobre o coração de Deus. Eu me lembro de olhar para aquelas pessoas e perceber que cada uma carregava uma realidade diferente.
Idiomas diferentes. Culturas diferentes. Experiências diferentes. Formações diferentes. Bandeiras diferentes. Mas havia algo maior nos unindo.
Jesus.
Naquele momento, eu talvez não conseguisse compreender tudo o que estava sendo falado. Muitas vezes, meu esposo precisava traduzir para mim. Aquilo que para outras pessoas poderia parecer uma barreira, para mim se tornou parte da beleza daquele momento.
Eu estava descobrindo que o Reino de Deus é maior do que aquilo que conseguimos compreender a partir da nossa própria cultura. Deus trabalha de maneiras diferentes em pessoas diferentes, mas continua sendo o mesmo Deus.
E ali eu pude compreender um pouco mais aquilo que Paulo escreveu: “Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida...” Efésios 3:10
A sabedoria de Deus é multiforme. Ele não está limitado à nossa maneira de fazer as coisas. Não está limitado à nossa cultura. Não está limitado ao nosso idioma. Não está limitado à nossa denominação. Não está limitado à nossa experiência. O Reino é grande demais para caber dentro das fronteiras que tantas vezes construímos.
Naquela mesa, eu estava aprendendo que existem irmãos que talvez eu nunca tivesse encontrado se Deus não tivesse nos colocado juntos.
E quando nos sentamos à mesa, começamos a perceber que aquilo que parecia distante não era tão distante assim. Tínhamos o mesmo Senhor. A mesma fé. O mesmo amor. A mesma esperança. O mesmo chamado para tornar Cristo conhecido.
A mesa de Emaús
Talvez uma das cenas mais profundas sobre uma mesa esteja em Lucas 24.
Dois discípulos estavam caminhando para Emaús. Eles estavam carregados de tristeza, frustração e perguntas. Jesus havia morrido. Aquele em quem haviam depositado esperança parecia ter sido vencido. Eles esperavam que Ele fosse aquele que redimiria Israel, mas os acontecimentos dos últimos dias haviam abalado completamente suas expectativas.
E então Jesus se aproxima e começa a caminhar com eles.
O detalhe impressionante é que Jesus estava ao lado deles, mas eles não conseguiam reconhecê-lo.
Eles estavam tão ocupados com aquilo que havia acontecido que não conseguiam perceber quem estava caminhando ao seu lado.
Quando Jesus pergunta sobre o que conversavam, eles praticamente perguntam: “És tu o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos dias?” Lucas 24:18
É quase como se dissessem: “Como você não sabe o que aconteceu?” Eles conheciam os acontecimentos. Conheciam a história. Sabiam quem era Jesus de Nazaré. Sabiam o que Ele havia feito. Sabiam o que havia acontecido. Mas ainda não haviam compreendido plenamente quem estava caminhando com eles. Essa é uma advertência para nós.
É possível conhecer informações sobre Jesus e, ainda assim, não reconhecer a Sua presença.
Podemos saber o que Ele fez e não perceber o que Ele está fazendo.
Podemos falar sobre Ele e não desfrutar da Sua presença.
Podemos caminhar por uma estrada com Ele e, por causa das nossas dores, medos e expectativas frustradas, não perceber que Ele está conosco. Mas então acontece algo extraordinário. Quando chegam ao destino, Jesus faz menção de continuar a caminhada.
E eles insistem: “Fica conosco, porque é tarde...” Lucas 24:29 Eles ainda não sabiam quem Ele era. Mas havia algo naquela presença que eles não queriam perder. Fica conosco. Que oração poderosa. Talvez algumas vezes não saibamos explicar exatamente o que Deus está fazendo. Talvez não consigamos compreender o caminho. Talvez ainda tenhamos perguntas.
Mas existe uma oração que nunca deveria deixar de existir em nossos lábios: Senhor, fica conosco.”
E Jesus entrou para ficar com eles. Então chegou a hora da mesa. “E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu.” Lucas 24:30
E então aconteceu: “Então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram...” Lucas 24:31
Que cena! Eles caminharam com Jesus. Ouviram Jesus. Conversaram com Jesus. Mas foi à mesa, no momento em que o pão foi tomado, abençoado e partido, que seus olhos foram abertos.
Talvez a mesa não tenha sido apenas o lugar onde Jesus partiu o pão.
Talvez tenha sido o lugar onde Deus estava mostrando que há revelações que acontecem quando nos sentamos, paramos, ouvimos e compartilhamos a vida.
O pão repartido
Existe outra mesa que sempre me toca: a multidão alimentada por Jesus.
Uma multidão estava diante dele. Havia fome. Havia necessidade. Havia pouco recurso. Os discípulos olharam para o que tinham e viram insuficiência. Jesus olhou para aquilo que tinham e viu possibilidade.
Cinco pães e dois peixes pareciam pouco diante de uma multidão. Mas, nas mãos de Jesus, o pouco se tornou suficiente. Ele tomou. Agradeceu. Partiu. E repartiu. E todos comeram. E todos foram saciados.
A lógica do Reino é impressionante. Quando colocamos nas mãos de Jesus aquilo que temos, Ele pode transformar o pouco em alimento para muitos.
Talvez você esteja olhando para a sua mesa hoje e pensando: “Eu tenho tão pouco para oferecer.” Mas Jesus nunca perguntou se você tinha muito. Ele perguntou o que havia. Talvez você tenha uma palavra. Talvez tenha uma história. Talvez tenha uma experiência. Talvez tenha aprendido algo através da dor.
Talvez tenha recebido uma revelação. Talvez tenha apenas um coração disposto a acolher alguém. Entregue isso a Jesus. Porque uma mesa não precisa ser sofisticada para ser santa. Não importa a cultura. Não importa a nacionalidade. Não importa o tamanho da casa. Não importa o que será servido. Quando existe amor, comunhão e um coração disposto a receber, Deus pode transformar aquela mesa em um lugar de multiplicação.
Três mulheres, diferentes bandeiras, um só Cristo
A fotografia que me inspirou a escrever tudo isso também carrega uma mensagem poderosa.
Nela estão três mulheres, representando realidades diferentes. Bandeiras diferentes. Histórias diferentes. Talvez culturas diferentes.
Mas existe algo que não aparece na bandeira. Existe algo que não está escrito em uma placa denominacional. Existe algo que não depende de idioma. Cristo nos une.
As bandeiras podem representar nossas origens, nossas culturas e nossas histórias.
Mas Jesus representa aquilo que nos torna uma família. Podemos carregar diferentes expressões, diferentes experiências e diferentes maneiras de servir, mas quando Cristo é o centro, a diversidade deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma expressão da beleza do Corpo.
A mesa nos ensina isso. Porque quando nos sentamos à mesa, deixamos de olhar apenas para aquilo que nos diferencia e começamos a perceber aquilo que compartilhamos.
Uma mesa pode reunir pessoas que nunca imaginariam estar juntas. Pode aproximar culturas. Pode construir pontes. Pode quebrar preconceitos. Pode gerar amizades. Pode trazer cura. Pode abrir os nossos olhos. Pode nos ensinar que o Reino de Deus não é formado por pessoas iguais.
É formado por pessoas diferentes que aprenderam a caminhar debaixo do mesmo Senhor.
O que estamos colocando sobre a mesa?
Talvez essa seja a pergunta que precisamos levar para casa.
Não apenas: “O que vou comer hoje?”
Mas: “O que estou repartindo hoje?”
Porque todos nós colocamos alguma coisa sobre a mesa. Alguns colocam alimento. Outros colocam conhecimento. Outros colocam histórias. Outros colocam esperança. Outros colocam conselhos. Outros colocam lágrimas. Outros colocam risadas. Outros colocam sua própria vida. E também podemos colocar feridas, julgamentos, críticas, orgulho e divisões.
Por isso, precisamos pedir ao Senhor que transforme as nossas mesas. Que nossas casas sejam lugares onde as pessoas não apenas encontrem comida, mas encontrem presença. Que nossos filhos não encontrem apenas regras, mas encontrem relacionamento. Que nossos amigos não encontrem apenas uma cadeira, mas encontrem pertencimento. Que aqueles que chegam cansados encontrem descanso.
Que aqueles que chegam famintos encontrem alimento. Que aqueles que chegam feridos encontrem graça. Que aqueles que chegam confusos encontrem direção. E que aqueles que ainda não conseguem enxergar Jesus possam, através da nossa comunhão, começar a perceber que Ele está presente.
Uma mesa que não despede ninguém vazio
Talvez seja essa a imagem que quero guardar. Os discípulos de Emaús chegaram à mesa carregando tristeza e saíram com os olhos abertos. A multidão chegou faminta e saiu saciada. Aquela missionária na Albânia nos recebeu com comida, mas também nos alimentou com sua história e com aquilo que Deus havia colocado dentro dela.
A mesa de líderes na Albânia nos mostrou que diferentes nações podem se sentar juntas e celebrar o mesmo Cristo. E tantas outras mesas da nossa vida nos ensinaram coisas que talvez nunca aprenderíamos de outra maneira. Por isso, hoje, quando me sento à mesa, eu já não vejo apenas pratos, copos e talheres.
Eu vejo oportunidades. Vejo pessoas. Vejo histórias. Vejo sementes. Vejo comunhão. Vejo um Deus que gosta de se revelar no meio da simplicidade. Porque talvez o milagre não esteja somente no que está sendo servido.
O milagre também pode estar em quem Deus colocou ao nosso lado. E talvez existam pessoas chegando às nossas mesas com fome de algo que não está no cardápio. Fome de amor. Fome de pertencimento. Fome de escuta. Fome de esperança. Fome de Deus.
E quando uma mesa está cheia de amor e um coração está disposto a receber, Deus sabe fazer aquilo que sempre fez: Ele toma o pouco, abençoa, parte e multiplica.
Então, que nunca nos falte uma mesa.
Não necessariamente uma mesa grande, bonita ou cheia de recursos. Mas uma mesa onde Cristo seja o centro. Uma mesa onde exista espaço para o outro. Uma mesa onde possamos repartir o pão e também repartir a vida. Uma mesa onde culturas diferentes possam se encontrar. Uma mesa onde as diferenças não sejam maiores do que aquilo que nos une. Uma mesa onde alguém possa chegar sem esperança e sair fortalecido. Uma mesa onde os olhos possam ser abertos.
Porque, no fim, talvez a maior pergunta não seja: “O que havia sobre aquela mesa?”
Mas: “Quem estava sentado à mesa e o que Deus estava repartindo entre nós?”
Que o Senhor nos ensine a preparar mesas assim. Mesas que alimentam. Mesas que curam. Mesas que instruem. Mesas que reconciliam. Mesas que conectam nações. Mesas que revelam Cristo. E que, todas as vezes que nos sentarmos à mesa, possamos perceber que não estamos apenas compartilhando uma refeição.
Estamos compartilhando aquilo que Deus colocou dentro de nós. E quando Cristo está no centro, nenhuma mesa é apenas uma mesa. Ela pode se tornar um altar de comunhão, uma escola de sabedoria e um lugar onde Deus abre os nossos olhos.
Deus vos abençoe
Sara Oliveira Ribeiro


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