Existe uma obra que Deus realiza e que poucos desejam experimentar. Todos querem crescer, prosperar, influenciar e cumprir um grande propósito. Poucos, porém, desejam passar pelo processo que torna tudo isso seguro. Antes de confiar algo às nossas mãos, Deus trabalha profundamente no nosso coração.
A maior obra de Deus nunca foi construir um ministério; sempre foi formar Cristo em nós.
É por isso que, muitas vezes, o Senhor não começa mudando nossas circunstâncias. Ele começa matando aquilo que, dentro de nós, compete com Cristo.
Nossa primeira impressão é pensar que Deus quer remover apenas o pecado evidente. Certamente Ele trata o pecado. Contudo, existe uma camada muito mais profunda: as motivações escondidas.
Há desejos que parecem santos, mas nasceram do ego.
Há sonhos que usam linguagem bíblica, mas têm origem na necessidade de reconhecimento.
Há projetos que falam do Reino, mas alimentam nossa identidade.
Existe uma diferença entre desejar que Cristo seja conhecido e desejar ser conhecido por anunciar Cristo.
Essa diferença é quase imperceptível para quem olha de fora, mas nunca passa despercebida aos olhos de Deus. O coração humano possui uma capacidade impressionante de espiritualizar seus próprios ídolos.
Chamamos de "chamado" aquilo que, muitas vezes, é necessidade de aprovação.
Chamamos de "visão" aquilo que, em alguns momentos, é ambição.
Chamamos de "expansão do Reino" aquilo que pode ser apenas expansão do nosso nome.
Chamamos de "fruto ministerial" aquilo que, por vezes, apenas alimenta nosso senso de importância.
Nada disso significa que o chamado não exista. Significa apenas que Deus não permitirá que ele seja sustentado por motivações impuras. Por isso, antes de levantar alguém, Deus o conduz ao lugar da morte.
Jesus afirmou: "Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto." (João 12:24)
O princípio nunca mudou. Não existe fruto sem morte. Não existe ressurreição sem cruz. Não existe revelação de Cristo onde o ego continua vivo. O maior obstáculo para a manifestação de Cristo não é o diabo. É o "eu".
Enquanto Cristo cresce, o ego precisa diminuir. João Batista compreendeu esse princípio quando declarou: "Convém que Ele cresça e que eu diminua." (João 3:30)
Essa não é apenas uma frase bonita. É a essência do discipulado.
O Reino ou o Império?
Existe um perigo extremamente sutil. Podemos começar construindo o Reino de Deus e, sem perceber, terminar construindo nosso próprio império. O império sempre gira em torno da pessoa.
O Reino sempre gira em torno do Rei. O império mede sucesso por números. O Reino mede fidelidade. O império precisa de plataformas. O Reino precisa de cruz. O império produz admiradores. O Reino forma discípulos. O império deseja relevância. O Reino deseja obediência.
Talvez o maior engano do coração humano seja vestir o império com roupas do Reino.
Usamos versículos. Falamos de avivamento. Falamos de missões. Falamos de almas. Mas, escondido em algum lugar do coração, ainda existe alguém querendo ser visto. O problema não é crescer. O problema é crescer para si mesmo. O problema não é possuir influência. O problema é quando a influência se torna alimento da identidade.
Toda vez que nossa segurança depende do tamanho do ministério, do número de seguidores, da quantidade de convites ou da aprovação das pessoas, um ídolo já começou a ocupar o lugar que pertence somente a Cristo. Os ídolos modernos raramente são imagens de pedra.
Muitas vezes, são versões idealizadas de nós mesmos.
As provas de Deus
É justamente por isso que Deus estabelece processos. As provas nunca existem porque Deus desconhece nosso coração. Elas existem porque nós o desconhecemos. Não é Deus quem precisa descobrir nossas motivações. Somos nós.
Os testes do Senhor arrancam as máscaras que usamos diante de nós mesmos.
É fácil acreditar que servimos somente por amor quando tudo está dando certo.
Mas Deus permite situações que revelam aquilo que realmente governa o coração.
Algumas dessas provas aparecem de maneira silenciosa. Somos esquecidos quando esperávamos reconhecimento. Outro recebe a oportunidade que acreditávamos ser nossa. O trabalho realizado não recebe elogios. A porta se fecha. O crescimento demora. As promessas parecem distantes. Somos mal compreendidos. Pessoas nos abandonam. Outros recebem aquilo que julgávamos merecer.
Nesses momentos, Deus não está destruindo nosso chamado.
Está revelando nossos ídolos.
Quando a alegria desaparece porque não fomos vistos, talvez não estivéssemos servindo apenas por Cristo. Quando a paz acaba porque perdemos uma posição, talvez nossa identidade estivesse na posição. Quando a dor da rejeição supera a alegria da obediência, Deus revela onde nosso coração realmente estava firmado.
Os testes não criam ídolos.
Eles apenas os expõem.
Os estágios da morte interior
De maneira recorrente, Deus conduz Seus servos por alguns estágios.
Primeiro, vem o entusiasmo. Tudo parece extraordinário. As promessas parecem próximas. Existe paixão, expectativa e grandes sonhos. Depois surge o anonimato. O céu parece silencioso. Nada acontece na velocidade imaginada. Nesse lugar, Deus começa a separar o chamado das motivações.
Em seguida vem a poda. Coisas importantes são retiradas. Pessoas vão embora. Portas se fecham. Sonhos precisam ser entregues.
É a estação em que Deus pergunta silenciosamente: "Se tudo isso desaparecer, Eu ainda serei suficiente?"
Depois chega o deserto. Ali morrem as justificativas. Morrem as comparações. Morrem as disputas. Morre a necessidade de provar alguma coisa. No deserto sobra apenas Deus.
Quando nada mais sustenta a identidade além da presença, começa a nascer um novo homem.
Então chega a cruz. Não a cruz da salvação, pois essa pertence exclusivamente a Cristo. Mas a cruz do discipulado. A entrega diária. A morte do ego. A renúncia constante. Finalmente chega a ressurreição.
Não ressuscita o velho homem. Ressuscita uma nova maneira de viver. Já não existe ansiedade para ser visto. Já não existe necessidade de vencer comparações. Já não existe desespero por plataformas.
Agora existe apenas uma pergunta: "Cristo está sendo revelado?"
Se a resposta for sim, tudo o mais perde importância.
Não existem motivações no Reino
Talvez uma das maiores descobertas espirituais seja esta: No Reino de Deus, a motivação não é o centro. A obediência é.
Vivemos em uma cultura obcecada por encontrar motivações.
As pessoas perguntam: "Qual é minha paixão?" "O que me realiza?" "O que faz sentido para mim?"
Mas Jesus nunca chamou discípulos por motivação. Chamou-os por obediência.
Abraão saiu sem saber para onde iria. Moisés voltou ao Egito contra todas as suas preferências. Jeremias não desejava ser profeta. Jonas queria fugir. Paulo perdeu tudo o que lhe dava prestígio.
Jesus, no Getsêmani, pronunciou as palavras que resumem todo o Reino: "Não seja feita a minha vontade, mas a tua." (Lucas 22:42)
Essa é a verdadeira espiritualidade.
O Reino não avança porque pessoas estão motivadas. O Reino avança porque pessoas obedecem. Motivações mudam. Emoções oscilam. Circunstâncias variam. A obediência permanece. O propósito de Deus nunca foi criar homens altamente motivados.
Foi formar filhos completamente rendidos.
Até que somente Cristo permaneça
O alvo final de Deus nunca foi fazer nosso ministério crescer.
Nem aumentar nossa influência.
Nem ampliar nossa plataforma.
O objetivo sempre foi revelar Seu Filho.
Tudo aquilo que impede essa revelação será tratado.
Ainda que doa. Ainda que demore. Ainda que custe sonhos, posições e reconhecimento.
Porque Deus ama demais Seus filhos para permitir que confundam sucesso ministerial com maturidade espiritual.
No fim do processo, resta apenas Cristo.
Já não importa quem recebe os aplausos.
Já não importa quem aparece.
Já não importa quem é lembrado.
A única pergunta continua sendo: Cristo foi revelado?
Se Ele foi visto, então o propósito foi cumprido.
Porque, no Reino de Deus, nunca existiu um projeto para exaltar homens. Desde o princípio até a eternidade, existe apenas um Nome digno de toda glória, toda honra e todo louvor: Jesus Cristo.
Espero que você chegue ao fim do processo, e comece o novo ciclo, até depois do fim
Leonardo Lima Ribeiro
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Glória a Deus , quantas perguntas são feitas pra nós nesse texto .
ResponderExcluirSerá que estamos colocando nossos idolos no lugar de Cristo ? Boa reflexão