Há momentos na vida em que tudo parece caminhar na direção contrária daquilo que Deus prometeu.
É como se as orações batessem no teto, os sonhos fossem interrompidos e cada porta que parecia aberta se fechasse diante de nós. Nesses momentos, nossa primeira reação quase sempre é perguntar: "Por quê?"
Por que Deus permitiu isso?
Por que justamente comigo?
Por que agora?
Essas perguntas acompanham praticamente todos aqueles que decidiram seguir Jesus. O evangelho nunca prometeu ausência de lutas. Pelo contrário, Cristo declarou com absoluta clareza: "No mundo tereis aflições."
O detalhe interessante é que Jesus não terminou a frase ali.
Ele continuou: "Mas tende bom ânimo; eu venci o mundo."
A promessa nunca foi uma vida sem processos. A promessa foi Sua presença durante eles. Essa diferença muda completamente nossa perspectiva. Deus não criou o processo, mas domina sobre ele. Existe uma ideia muito difundida entre alguns cristãos de que Deus envia todo sofrimento para ensinar alguma lição.
Entretanto, quando observamos cuidadosamente as Escrituras, percebemos que essa não é a linguagem da Bíblia.
Tiago afirma categoricamente: "Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta."
Isso significa que Deus não produz enfermidade para ensinar cura. Não produz pobreza para ensinar provisão. Não produz pecado para ensinar santidade. Não produz destruição para ensinar restauração. O mal entrou no mundo por causa da queda do homem. Vivemos em um mundo quebrado.
Satanás continua tentando destruir. As escolhas humanas continuam produzindo consequências. Entretanto, existe uma verdade extraordinária: Embora Deus não seja o autor do mal, Ele continua sendo Senhor sobre todas as circunstâncias. Aquilo que Satanás pretende usar como destruição, Deus pode transformar em formação. Aquilo que parecia um fim torna-se uma escola.
Aquilo que parecia derrota transforma-se em testemunho. José foi vendido. Não porque Deus desejasse a maldade dos irmãos. Mas Deus governou todo aquele processo. No final José declara: "Vocês intentaram o mal contra mim; Deus, porém, o tornou em bem."
Essa talvez seja uma das maiores demonstrações da soberania divina.
Deus não precisa criar uma tragédia para realizar Seus propósitos.
Ele simplesmente é poderoso o suficiente para transformar qualquer tragédia em instrumento de redenção.
A diferença entre problema e processo
Todo discípulo enfrenta problemas.
Mas nem todo cristão entende processos.
Problemas existem para todos. Processos pertencem aos discípulos. O problema é apenas uma circunstância. O processo é quando Deus utiliza essa circunstância para produzir algo eterno dentro de nós. O problema atinge nosso exterior. O processo transforma nosso interior. Enquanto o problema apenas dói, o processo amadurece. É por isso que duas pessoas podem viver exatamente a mesma crise e sair completamente diferentes dela.
Uma sai amarga. Outra sai madura. Uma perde a fé. Outra fortalece sua confiança. Uma se torna vítima. Outra se torna testemunha.
O que fez a diferença?
A maneira como enxergaram aquilo que estavam vivendo.
O discipulado muda nossa interpretação da dor Existe uma grande diferença entre frequentar cultos e viver em discipulado. Quem apenas frequenta reuniões normalmente mede Deus pelos resultados imediatos. Quem vive discipulado aprende a confiar em Deus mesmo quando ainda não vê resultados. O discípulo entende que Deus está trabalhando enquanto ele ainda não consegue perceber.
O discípulo aprende que crescimento raramente acontece nos dias fáceis. As maiores transformações quase sempre ocorrem durante as maiores pressões. Assim acontece com uma árvore. Suas raízes não se aprofundam durante dias tranquilos. São os ventos fortes que obrigam suas raízes a crescerem. Da mesma forma acontece conosco. Quando tudo vai bem, conhecemos pouco da fidelidade de Deus.
Mas quando atravessamos desertos, descobrimos aspectos do caráter divino que jamais conheceríamos em dias de abundância. Nenhum processo é permanente Uma das armas preferidas do inimigo é convencer o cristão de que sua situação nunca mudará. Foi exatamente isso que aconteceu com Elias.
Depois de experimentar um dos maiores milagres da Bíblia no monte Carmelo, bastou uma ameaça para fazê-lo acreditar que tudo havia acabado.
Pedro também viveu algo semelhante.
Ao olhar para as ondas, esqueceu-se de Quem havia ordenado que ele andasse sobre elas. Os discípulos, dentro do barco, acreditaram que a tempestade definiria o final daquela viagem. Entretanto, havia algo que eles ainda não compreendiam. Jesus estava no barco.
Quando Cristo está presente, nenhuma tempestade possui autoridade para determinar nosso destino. Ela apenas participa do processo. Todo processo possui início. Todo processo possui propósito. Todo processo possui término. O sofrimento pode durar uma noite. Mas a alegria continua chegando pela manhã.
Deus acelera processos.
Existe outro princípio extraordinário pouco compreendido. Nem todos os processos precisam durar o mesmo tempo. Há processos que são acelerados pela obediência. Quando resistimos à vontade de Deus, prolongamos etapas desnecessariamente. Israel levou quarenta anos para concluir uma caminhada que poderia durar poucas semanas. Não foi falta de poder divino. Foi resistência humana. Sempre que respondemos rapidamente à voz do Espírito Santo, aprendemos mais depressa.
Quem aprende mais cedo amadurece mais cedo. Quem amadurece mais cedo avança mais cedo. Deus nunca tem prazer em manter Seus filhos presos em ciclos intermináveis. Seu desejo é formar Cristo em nós. O ambiente onde os processos produzem fruto Nenhum discípulo amadurece sozinho. A cultura moderna exalta independência. O Reino valoriza comunhão.
O mundo diz: "Você não precisa de ninguém."
Jesus diz: "Façam discípulos."
O Novo Testamento nunca apresenta cristãos isolados vivendo plenamente. Sempre encontramos pessoas caminhando juntas. Aprendendo juntas. Corrigindo-se mutuamente. Servindo umas às outras. Essa é uma das razões pelas quais a Igreja local continua sendo indispensável. Ela não é apenas um prédio. Ela é uma família espiritual. É dentro dela que somos confrontados.
Consolados. Ensinados. Exortados. Amados.
E preparados.
Quem abandona esse ambiente dificilmente consegue atravessar processos de maneira saudável. A tendência do isolamento é amplificar a dor e diminuir a esperança. O processo produz identidade Talvez o maior resultado dos processos não seja aquilo que Deus faz por nós. Mas aquilo que Deus faz em nós. Antes de Deus confiar grandes responsabilidades, Ele trabalha profundamente nosso caráter.
José recebeu sonhos antes de receber autoridade. Moisés passou quarenta anos no deserto antes de libertar Israel. Davi enfrentou gigantes, cavernas e perseguições antes de sentar-se no trono. Jesus passou trinta anos sendo preparado para apenas três anos e meio de ministério público. O Reino nunca prioriza desempenho acima do caráter. O caráter sempre antecede a autoridade.
Uma pergunta que muda tudo
Talvez, diante das lutas, a pergunta mais importante não seja: "Quando isso vai acabar?" Talvez a pergunta correta seja: "Senhor, o que o Senhor deseja formar em mim durante este processo?"
Essa mudança de perspectiva transforma completamente nossa caminhada. O foco deixa de ser apenas sair da dor. Passa a ser crescer através dela. Então descobrimos que Deus continua trabalhando. Mesmo quando não vemos. Mesmo quando não entendemos. Mesmo quando tudo parece silencioso. Porque o maior milagre nunca foi apenas tirar alguém do deserto. O maior milagre sempre foi transformar o coração durante a travessia.
O Deus que transforma desertos em escolas
Existem dias em que Deus parece estar em silêncio. Não porque deixou de falar. Mas porque nós esperávamos outra resposta. Esperávamos um milagre imediato, enquanto Deus preparava uma transformação permanente. É curioso perceber que ninguém deseja um processo. Desejamos respostas. Desejamos portas abertas. Desejamos cura. Desejamos promoção. Desejamos restauração. Mas quase ninguém acorda pela manhã pedindo que Deus o coloque em uma longa temporada de formação.
No entanto, quando olhamos para a história da redenção, percebemos um padrão que se repete continuamente. Deus chama homens rapidamente. Mas os prepara lentamente. Abraão recebeu uma promessa José recebeu um sonho. Moisés recebeu um chamado. Davi recebeu uma unção. Pedro recebeu uma palavra. Paulo recebeu uma revelação. Entretanto, entre o chamado e o cumprimento sempre existiu um intervalo.
Esse intervalo possui um nome. Processo. Vivemos numa cultura que idolatra a velocidade. Tudo precisa acontecer imediatamente. Compramos com um clique. Conversamos instantaneamente. Recebemos informação em segundos. Criamos a ilusão de que maturidade também pode ser instantânea. Mas Deus nunca trabalhou dessa maneira. A natureza revela Seu método. Nenhuma árvore produz frutos no dia em que é plantada. Nenhum bebê nasce adulto. Nenhum rio nasce profundo. Tudo aquilo que possui valor passa pelo tempo. O Reino de Deus também funciona assim. Enquanto o homem mede velocidade, Deus mede profundidade.
Enquanto a sociedade recompensa resultados, Deus recompensa fidelidade. Enquanto nós perguntamos: "Quanto tempo vai demorar?" Deus pergunta: "O quanto você está disposto a ser transformado?" É exatamente aqui que muitos abandonam sua caminhada. Eles confundem demora com abandono. Confundem silêncio com ausência. Confundem processo com rejeição. Mas a Bíblia revela algo extraordinário. Os maiores homens de Deus experimentaram longos períodos em que parecia que absolutamente nada estava acontecendo.
José passou anos como escravo e depois como prisioneiro. Humanamente falando, sua vida estava andando para trás. Cada capítulo parecia pior que o anterior. Primeiro perdeu a família. Depois perdeu a liberdade. Depois perdeu a reputação. Depois perdeu a esperança. Se analisássemos sua história apenas pelas circunstâncias, concluiríamos que Deus havia esquecido Sua promessa.
Mas havia um detalhe invisível.
Enquanto José acreditava estar preso numa prisão egípcia, Deus estava construindo um governador. O cárcere nunca foi o destino. Foi a universidade. Porque Deus não estava preparando José para governar durante um ano. Estava preparando José para sustentar uma geração inteira. Existe uma diferença enorme entre desejar uma posição e possuir estrutura para sustentá-la. É justamente essa estrutura que os processos constroem. O sofrimento nunca tem a palavra final
Existe uma pergunta que atravessa toda a Escritura. Por que homens justos sofrem?
Jó fez essa pergunta.
Jeremias fez essa pergunta.
Habacuque fez essa pergunta.
Os salmistas fizeram essa pergunta inúmeras vezes.
Nós também fazemos.
Nossa tendência é imaginar que sofrimento e amor de Deus são incompatíveis.
Mas a cruz destrói completamente essa ideia. No momento em que o Filho de Deus estava pregado entre dois criminosos, tudo parecia indicar derrota.
A religião comemorava. Roma acreditava ter vencido. Os discípulos fugiram. O céu permaneceu em silêncio. Durante três dias, parecia que o inferno havia escrito o capítulo final da história.
Mas Deus tem um costume maravilhoso. Quando todos pensam que a história terminou, Ele escreve um novo começo. A ressurreição revela que Deus nunca interpreta uma história pelo capítulo da dor. Ele sempre olha para o capítulo da redenção. É exatamente isso que acontece conosco. Há temporadas em que interpretamos nossa vida pela sexta-feira da cruz. Enquanto Deus já contempla o domingo da ressurreição. O maior campo de batalha é a interpretação
Satanás raramente começa atacando nossas circunstâncias. Ele começa atacando nossa interpretação das circunstâncias. Foi assim no Éden. Foi assim com Jó. Foi assim no deserto com Jesus. Foi assim com Elias. Foi assim com Pedro.
A pergunta nunca é apenas: "O que está acontecendo?"
A pergunta verdadeira é: "Como você interpreta o que está acontecendo?"
Dois homens podem atravessar a mesma perda.
Um conclui: "Deus me abandonou."
Outro declara: "Não compreendo tudo, mas continuo confiando."
A circunstância é idêntica. A interpretação produz destinos completamente diferentes. Por isso Paulo escreve que devemos renovar nossa mente. O primeiro milagre que Deus realiza em um discípulo raramente acontece ao redor dele. Acontece dentro dele. Antes de transformar circunstâncias, Deus transforma perspectivas. Quando a perspectiva muda, até o sofrimento ganha um novo significado.
Deus vos abençoe
Leonardo Lima Ribeiro
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