terça-feira, 7 de abril de 2026

Amadurecendo nosso chamado

Hoje vamos trabalhar dentro de um contexto muito real no corpo de Cristo. Quero que você participe: comente se concorda, se discorda, compartilhe sua experiência. Precisamos aprender a pensar, a raciocinar e a compreender os contextos. Muitas vezes repetimos crenças e entendimentos apenas porque ouvimos de alguém ou porque vivemos em determinado ambiente, sem realmente entender a profundidade daquilo que estamos dizendo.

Abra sua Bíblia em 2 Coríntios 11:23–28. O apóstolo Paulo está falando à igreja de Corinto. Quero tratar hoje sobre questões emocionais — o que tem feito muitas pessoas permanecerem anos na igreja sem avançar espiritualmente, sem amadurecer, e também o que tem levado outras, após experiências negativas, a se afastarem da comunhão.

O tema desta mensagem é: “A religiosidade impede o mover de Deus.”

Neste texto, Paulo faz uma defesa do seu apostolado, pois havia um grupo de líderes influenciando a igreja com doutrinas diferentes e tentando descredibilizá-lo. Então ele diz: “São ministros de Cristo? Falo como fora de mim. Eu ainda mais: em trabalhos muito mais; em prisões, muito mais; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes…”

E ele continua relatando tudo o que sofreu: açoites, prisões, perseguições, fome, frio, perigos diversos, além da pressão diária pelo cuidado com todas as igrejas.

E no versículo 30, ele conclui: “Se tenho de me gloriar, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza.”

Aqui está um ponto fundamental: Paulo não esconde a dor, mas também não romantiza o sofrimento.

Existe uma grande diferença entre expor uma fraqueza para glorificar a Deus e usar a dor para gerar pena ou autopromoção. Paulo não tenta parecer forte, nem se coloca como vítima. Ele apresenta suas limitações e sofrimentos para evidenciar que foi a graça de Deus que o sustentou.

Ou seja, ele transforma sua fraqueza em glória para Deus.

Por outro lado, há pessoas que romantizam o sofrimento — enfatizam a dor para despertar pena, para serem vistas como heróis ou como vítimas, buscando algum tipo de benefício emocional ou reconhecimento.

Paulo não faz isso. Ele não se exalta e não se vitimiza. Ele manifesta maturidade espiritual ao lidar com suas lutas.

E é exatamente aqui que entra um problema muito presente hoje.

Temos enfrentado uma grande dificuldade dentro da igreja: não é apenas a convivência com irmãos — porque isso aprendemos com o tempo, através do perdão, da compaixão e do entendimento de que todos somos imperfeitos.

O maior desafio tem sido a forma como muitos líderes têm se comportado.

A partir da minha experiência, inclusive atendendo pessoas, percebo algo preocupante: muitos chegam à igreja carregando feridas e acabam encontrando dentro dela os mesmos tipos de dores que já viveram no mundo. Sim, é normal encontrar pessoas imperfeitas na igreja. Isso é inevitável. Mas não podemos normalizar o fato de que líderes sejam responsáveis pela maior parte dessas feridas.

Nós, como líderes, precisamos assumir nossa responsabilidade. Precisamos amadurecer, ser curados emocionalmente, ter a mente transformada, para não ferirmos pessoas que Deus trouxe para serem restauradas.

Não podemos nos isentar dizendo: “Quem cura é Jesus, quem cura é o Espírito Santo.”

Se não temos responsabilidade nenhuma nesse processo, então por que as pessoas precisam estar na igreja?

Isso se torna incoerente.

Quando olhamos para Paulo, vemos alguém que sofreu profundamente — emocionalmente, fisicamente e espiritualmente —, mas que, ao final, não se exaltou nem se vitimizou. Ele glorificou a Deus, reconhecendo que foi a graça divina que o sustentou.

Isso revela maturidade. Paulo, já experiente no ministério, formado por anos de processo, conseguia comunicar uma mensagem firme, mas cheia de amor, demonstrando seu cuidado e entrega pela igreja.

E hoje enfrentamos outro problema: muitos recebem uma palavra profética, um chamado, e passam a acreditar que tudo acontecerá de forma imediata.

Deus fala hoje, e a pessoa quer abrir uma igreja amanhã. Mas não entende o processo. Não compreende que antes da realização do chamado, é necessário amadurecimento — emocional, espiritual e de caráter.

Sem esse processo, a pessoa pode até começar algo, mas não terá estrutura para sustentar. A partir disso, eu começo a observar dois tipos de comportamento dentro da igreja — especialmente em contextos que estão fora do padrão apresentado por Paulo.

Eu já vi dois tipos de igreja. Se você também já viu, reflita sobre isso.

O primeiro tipo é a igreja do pastor vitimista.

Esse líder se apresenta como alguém que sofre o tempo todo, como um coitado. Tudo na vida dele gira em torno da dor. Muitas vezes isso não é intencional, nem fruto de má fé. Na maioria dos casos, é resultado de feridas emocionais — deformações da alma que ainda não foram tratadas.Isso acontece porque essa pessoa não passou pelo processo de amadurecimento necessário. Ela entrou no ministério antes de estar pronta, antes de ser moldada por Deus.

Então surge a vitimização. O pastor começa a se posicionar como alguém que precisa ser carregado pela igreja. A ideia transmitida é: “Deus me chamou, então agora vocês precisam cuidar de mim.”

E, com isso, as pessoas passam a sentir pena. Criam uma visão distorcida, como se o chamado fosse um peso insuportável, quase um castigo.

Isso é muito comum, por exemplo, na forma como muitos enxergam missionários. Existe uma mentalidade de que o missionário precisa sofrer — dormir mal, comer mal, viver com escassez — e ainda fazer apelos emocionais para sobreviver.

E, quando ele tenta se posicionar de forma bíblica, como Paulo fez, ainda pode ouvir críticas como: “Vai trabalhar, porque Paulo trabalhou.”

Mas precisamos contextualizar isso. Quando analisamos as cartas aos Coríntios, vemos que Paulo fala claramente sobre a dignidade do trabalhador. Ele afirma que todo trabalhador é digno do seu salário e usa o exemplo: “Não amordace o boi enquanto ele debulha.”

Ou seja, quem vive para o evangelho tem o direito de viver do evangelho. Paulo ensinava que aqueles que são chamados integralmente devem se dedicar totalmente àquilo que Deus os chamou para fazer. E, por isso, é justo que sejam sustentados.

No entanto, ele mesmo decidiu, em alguns momentos, não exercer esse direito. Não porque não pudesse, mas por uma decisão pessoal, para não comprometer a mensagem. Ele inclusive cita outros exemplos, como Pedro, que era sustentado juntamente com sua família, e igrejas como Filipos, Tessalônica e Macedônia, que contribuíam financeiramente.

Já a igreja de Corinto, mesmo sendo rica, retinha recursos — e, pior, sustentava outros líderes que Paulo chama de “superapóstolos”.

Isso nos leva ao segundo tipo de igreja: O extremo oposto — o pastor super-herói.

Esse líder não se vê como vítima, mas como alguém extraordinário, acima dos outros. Ele se enxerga como alguém especial demais, quase inalcançável. É a síndrome de superioridade.

Se o primeiro vive na inferioridade, este vive na exaltação.

Ambos estão desequilibrados. Paulo, porém, apresenta um modelo completamente diferente. Ele nos mostra o equilíbrio do chamado. Ele reconhece as dificuldades, mas não se prende a elas. Ele entende que, em Cristo, somos mais que vencedores — não porque não enfrentamos dores, mas porque somos sustentados por Deus nelas.

Hoje, muitas vezes enfatizamos apenas o lado triunfante da igreja — e isso é bíblico. A igreja é, sim, triunfante. Mas isso não significa que deixamos de ser humanos.

Temos emoções, sentimentos, limitações.

Nossa vitória está em Cristo. Nossa perfeição está em Cristo — não em nós mesmos.

Por isso Paulo declara: “Se tenho que me gloriar, eu me glorio no Senhor.”

Em outro momento, ele reforça: “Se tudo que tenho veio de Deus, por que me gloriaria em mim mesmo?”

Assim, uma igreja fora da mente de Cristo oscila entre esses dois extremos:

— o líder que se vê como vítima do chamado

— e o líder que se vê como um super-herói

No contexto de Corinto, Paulo estava lidando exatamente com esse segundo caso. Os chamados “superapóstolos” eram líderes que se apresentavam com aparência de sucesso, glamour e influência — algo que impressionava os coríntios.

Eles eram admirados pela imagem que transmitiam. E então começaram a comparar esses líderes com Paulo. Antes de sua conversão, Paulo tinha tudo para ser admirado: era fariseu, intelectual, influente, respeitado socialmente, provavelmente com estabilidade financeira e grande reconhecimento religioso.

Ele tinha todas as credenciais humanas. Mas, após conhecer a verdade, tudo isso perdeu valor.

O próprio Paulo declara que considerou tudo aquilo como “lixo”, para ganhar a Cristo. Sua confiança deixou de estar em suas credenciais e passou a estar na revelação de Cristo.

A verdade se tornou sua única base. E isso teve um custo. Paulo deixou de ser influente socialmente. Foi perseguido, preso, rejeitado. Ganhou “credenciais” como prisioneiro, criminoso e foragido. Foi açoitado, apedrejado e perseguido principalmente pelos próprios judeus, ao anunciar que Cristo era o cumprimento daquilo que eles esperavam.

E, mesmo assim, ele permaneceu firme. Mas observe algo importante: no final da vida, Paulo não tinha mais popularidade. Não tinha seguidores, nem apoio em massa. Estar ao lado dele significava correr riscos reais — rejeição social, perda de oportunidades, perseguição.

Seguir Paulo tinha um preço. E é aqui que precisamos refletir sobre a igreja de hoje. Muitas vezes chamamos as pessoas para a igreja sem preparar o ambiente para recebê-las.

Dizemos: “Venha para a igreja, lá você será ajudado.”

Mas quem é responsável por estruturar esse ambiente de cura?

A liderança.

A mentalidade, a compaixão, o cuidado — tudo isso é responsabilidade pastoral.

No entanto, o que muitas pessoas encontram ao pedir ajuda?

Reprovação. Elas chegam feridas, pedindo socorro, e ouvem: “Você é imaturo.”; “Você é muito ferido.”

Ou seja, a pessoa pede ajuda e ainda é julgada por precisar de ajuda. Eu falo isso não para acusar, mas para edificar. Para que haja arrependimento e transformação.

Eu mesmo vivi isso.

Venho de um contexto de dependência emocional. Quando cheguei à igreja, buscava conexão com as pessoas, muitas vezes sem perceber que estava, na verdade, pedindo socorro.

O dependente emocional carrega inseguranças, medos, traumas. E Deus quer restaurar nossa identidade.

Sim, quem cura é o Espírito Santo. Mas quem conduz nesse processo, especialmente no início da fé, são pessoas mais maduras — líderes que compreendem a dor do outro.

E, às vezes, o que alguém mais precisa ouvir é algo simples, mas poderoso: “Eu compreendo a sua dor.”

“Eu compreendo a sua dor.”

Essa é uma frase simples, mas extremamente poderosa — e, infelizmente, pouco ouvida.

Por que ninguém fala isso?

Porque, muitas vezes, estamos inseridos em dois tipos de ambiente: ou em um contexto onde o pastor é mais vítima do que você — e, no final, é você quem precisa ajudá-lo —, ou em um ambiente onde o pastor se vê como um super-herói, e a resposta que você recebe é: “Levanta, coloca a capa e segue em frente.”

Mas quem foi chamado para cuidar de pessoas precisa entender algo fundamental: cuidar exige compreensão. Talvez — e digo talvez, porque não conheço plenamente os caminhos de Deus — eu tenha vivido uma vida tão complexa justamente para isso.

Muitas pessoas me perguntam: “Mas você teve uma vida boa?”

Sim, nunca me faltou nada. Meus pais sempre me deram o melhor, são exemplos extraordinários. O problema nunca foram eles.

Mas, ainda assim, minha vida foi marcada por complexidade desde cedo. Isso gerou confusão de identidade, crises profundas, quase morte, envolvimento com drogas e álcool — experiências que destruíram completamente minha capacidade de me enxergar como pessoa.

Quando Jesus me alcançou, começou um processo de restauração.

O Espírito Santo passou a trabalhar em mim, trazendo verdade ao meu coração, curando dores, reconstruindo minha identidade. E, a partir disso, eu comecei a entender que minhas fraquezas poderiam glorificar a Deus — não pela dor em si, mas pela graça que me sustenta nela.

E isso também me permite ajudar outras pessoas a serem compreendidas e a caminharem nesse processo de fé e transformação.

Mas eu não ouvi isso de ninguém.

Não digo isso para culpar pessoas, mas para expor uma realidade.

Hoje, ainda que existam boas igrejas e bons líderes — e eu posso recomendar alguns —, não são tantos quanto deveriam ser. Em muitos lugares, você vai buscar ajuda e encontra alguém que ainda não compreendeu sua própria identidade em Deus.

Então você pede socorro a alguém que está emocionalmente mais ferido do que você.

Esse líder acredita que foi chamado apenas para sofrer. Ele ainda não entendeu que é justamente nas dores que Deus manifesta graça e libera dons para edificar outras pessoas. Como está escrito: quando somos fracos, então é que somos fortes, porque o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza.

Por outro lado, existe o outro extremo: a igreja do triunfalismo e do glamour.

Nesse ambiente, parece que não existe sofrimento. E, se você está sofrendo, o problema é você.

Se você não prosperou, a culpa é sua. Se não foi curado, a culpa é sua. Se não avançou, a culpa é sua.

Mas a pessoa já chegou na igreja carregando culpa, medo, insegurança.

E, quando ela abre o coração, dizendo que não sabe lidar com suas emoções, o que ela ouve é: “Esquece isso, levanta e segue.” O problema é que maturidade não nasce pronta.

Hoje, talvez você lide melhor com dores que antes te paralisavam. Mas isso só aconteceu porque houve um processo. E muitas pessoas ainda não sabem lidar com essas questões.

Foi assim comigo também.

Quando comecei a trabalhar como terapeuta, enfrentei rejeição. Eu mesmo já tive preconceito com terapia. Hoje entendo melhor.

Terapia é, essencialmente, tratamento.

Quando assumi essa função, entendi que ali não era o momento de pregar, mas de ouvir.

Ouvir intencionalmente.

Não para reforçar a dor, nem para alimentar vitimismo, mas para ajudar a pessoa a enxergar a verdade que cura — e essa verdade é Cristo.

A terapia oferece algo que muitas pessoas nunca tiveram: alguém disposto a escutar com atenção e propósito.

E isso tem feito diferença. Porque, infelizmente, muitos líderes hoje estão mais preocupados com o crescimento numérico da igreja do que com o crescimento das pessoas.

Quantas vezes já ouvi relatos como:

“Meu pastor não tem tempo para me ouvir.”

“Quando ele me ouve, eu saio pior.”

E isso acontece porque, muitas vezes, a pessoa recebe respostas duras sem que sua condição emocional seja considerada.

Mas alguém que já está ferido precisa primeiro ser acolhido, compreendido e conduzido com sabedoria.

A função pastoral é ajudar a pessoa a sair da condição de bloqueio — seja ele causado por medo, insegurança ou vitimismo.

E isso se faz com a Palavra de Deus.

Mas aqui há um alerta importante: A Palavra pode ser usada para curar — ou para ferir.

O próprio Paulo, antes de conhecer a Cristo, usou o conhecimento da Palavra para perseguir, prender e causar dor.

Hoje, ninguém está matando fisicamente como naquela época, mas existe morte emocional e espiritual acontecendo.

Quando a Palavra é usada para gerar medo, condenação ou opressão, ela está sendo mal aplicada.

E isso também destrói. É possível matar uma pessoa fisicamente, emocionalmente e espiritualmente.

E, infelizmente, muitos têm sido feridos dessa forma. Ao longo do tempo, comecei a atender pessoas também como uma forma de sustento, sem precisar pressionar ninguém a contribuir financeiramente. As ofertas continuam acontecendo de forma voluntária, e eu passei a trabalhar de outras maneiras, utilizando as capacidades que Deus me deu.

E, nesse processo, comecei a perceber algo preocupante: Ansiedade, depressão, desânimo, sentimento de incapacidade e frustração têm afastado muitas pessoas da igreja.

Algumas ainda frequentam, mas muitas já desistiram completamente.

Se formos pensar em proporção, de cada grupo de pessoas que conheço, uma parte significativa não quer mais congregar. Assistem conteúdos online, se relacionam à distância, mas não conseguem se comprometer com uma comunidade.

E o motivo quase sempre é o mesmo: feridas.

Mas essas pessoas não serão ajudadas se continuarmos rotulando-as como fracas ou problemáticas.

Precisamos perguntar: 

Será que não existe uma forma diferente de pastorear essas pessoas até que sejam curadas?

Será que todo modelo precisa ser o mesmo?

Hoje há discussões sobre igreja física, igreja online, formas de congregação…Mas, na prática, cada contexto funciona de uma maneira.

O problema é quando alguém acredita que o seu modelo é o único correto.

Enquanto isso, muitas pessoas estão sendo cuidadas nos bastidores — longe dos púlpitos — e sendo restauradas gradualmente.

E, quando essas pessoas são curadas, elas passam a desejar comunhão de forma saudável.

Elas entendem suas limitações, mas agora possuem maturidade para lidar com elas.

Infelizmente, muitos líderes ainda não estão preparados para isso. Não porque não possam ser, mas porque, muitas vezes, entraram no ministério antes de amadurecer.

Querem uma igreja grande, mas não se perguntam:

“Tenho estrutura emocional e espiritual para isso?”

Liderar pessoas exige preparo. Formar líderes exige maturidade. Sem isso, a igreja pode até crescer, mas se torna apenas uma estrutura — sem propósito claro.

E então surge uma pergunta importante:

Qual é o objetivo da igreja?

Muitas vezes respondemos: “Anunciar Jesus.”

Mas isso ainda é muito abstrato.

A igreja existe para as pessoas.

Cristo não precisa da igreja — nós precisamos.

A igreja foi estabelecida para que possamos nos relacionar, crescer e ser transformados juntos.

Cristo é revelado nas pessoas — não nas estruturas.

Não nas paredes, nem no dinheiro, nem no púlpito.

Cristo é revelado em nós.

E, quando Ele é revelado em nós, Deus é glorificado.

Pregar o evangelho não é apenas falar — é viver.

Você pode ser médico, advogado, padeiro, ou trabalhar em qualquer área — e ainda assim pregar o evangelho com a sua vida.

A palavra “mártir” significa testemunha.

E testemunhar é viver de forma que Cristo seja visto em você.

Por isso, não podemos impor nossa forma de viver o evangelho sobre os outros.

Cada pessoa tem um chamado, uma identidade, uma forma única de expressar aquilo que Deus colocou dentro dela.

O erro é acreditar que o nosso modelo é o padrão para todos.

Porque Deus criou cada pessoa de forma única. Não existem duas pessoas iguais. Cada identidade carrega uma expressão singular daquilo que Deus quer revelar ao mundo.

Deus fez você de forma única para que você entenda que Ele te chama pelo seu nome. Ele não fala com você como se fosse um número ou apenas um resultado. Ele te chama de filho, mas também te deu um nome — Ele te conhece pessoalmente.

Quando começamos a trabalhar dentro desses movimentos, percebemos que, vez ou outra, alguém acaba caindo, se desviando, se quebrando no processo. Isso acontece porque as pressões que estamos colocando sobre as pessoas muitas vezes não são as mesmas que Jesus colocou. Nós pressionamos porque queremos resultados para o nosso ministério.

E eu me incluo nisso. Estou falando como parte do corpo de Cristo. Queremos resultados — e, de certa forma, ninguém gera resultados sozinho. Seja empresário, pastor ou qualquer outra função, quando algo cresce, é necessário envolver outras pessoas. E, para continuar crescendo, surge a tendência de pressionar.

O problema é que, muitas vezes, a carga que colocamos nas pessoas não vem de Deus, mas das nossas próprias expectativas — do lugar onde queremos chegar. Em vez de discernir onde Deus quer levar cada pessoa, começamos a usar pessoas para cumprir nossos próprios propósitos.

Mas o corpo de Cristo não é uma corporação. Não é uma empresa capitalista que precisa crescer a qualquer custo. O crescimento do corpo de Cristo é orgânico, acontece por meio da comunhão — como vemos em Atos. A Bíblia diz claramente: “E Deus acrescentava os que iam sendo salvos”.

Ou seja, quem acrescenta é Deus.

O crescimento verdadeiro acontece de forma natural: alguém convida um vizinho, outro é impactado pelo testemunho de alguém, e assim o Reino vai avançando. Existe, sim, o ardor do Espírito Santo em algumas pessoas para alcançar mais vidas — e isso é legítimo. Mas também existe a vaidade humana, que busca reconhecimento e evidência.

E muitas vezes, essa vontade de crescer não é amor pelas pessoas, mas desejo de destaque.

Isso não é algo específico de alguém — é da natureza humana. É a vaidade. É a tentativa de chegar em um lugar onde Deus já nos colocou. No fim das contas, Deus nunca perde. Nada pode impedir o que Ele determinou.

Se confiarmos nEle, o Espírito Santo — que produz tanto o querer quanto o realizar — nos conduzirá. E quando fazemos algo em Deus, há convicção. Nem todos os dias serão fáceis, nem todos os dias teremos alegria, mas a convicção nos sustenta.

Outro erro comum é exigir das pessoas uma vida constante de perfeição espiritual — como se não existissem dias maus. Mas a própria Bíblia fala sobre o “vale da sombra da morte”. Existem momentos difíceis, e eles fazem parte do processo.

No entanto, em ambientes triunfalistas, quando alguém passa por esses momentos, é julgado e condenado. Dizem que falta oração, falta jejum, falta fé. Mas nem sempre é isso. Às vezes, é simplesmente o vale — e é depois dele que Deus prepara a mesa e unge a cabeça.

Por isso, tudo o que está sendo dito aqui não é uma verdade absoluta, mas um convite à reflexão:

Em que ambiente você está?

O que você tem cobrado de si mesmo?

Isso vem de Deus ou das suas próprias expectativas?

A graça de Deus cobre aquilo que Ele nos chamou para fazer. Fora disso, entramos no esforço humano — e isso nos leva aos extremos: a igreja vitimista ou a igreja triunfalista distorcida.

A igreja vitimista vive em constante sensação de perseguição, enquanto a triunfalista ignora o sofrimento e vende uma imagem irreal da vida cristã.

Mas a proposta de Cristo não é nenhuma dessas. A prosperidade, por exemplo, não é para ostentação, mas para generosidade. O que glorifica a Deus não é mostrar conquistas, mas viver uma vida transformada que abençoa outros.

Essas distorções já existiam desde a igreja primitiva. Em Segunda Carta aos Coríntios, capítulo 11, Paulo confronta os chamados “superapóstolos”, que aparentavam mais autoridade, mais influência, mais “imagem”.

Enquanto isso, Paulo não tinha essa aparência. Ele não tinha “branding”. E, por isso, foi descredibilizado.

Mas ele deixa claro: tudo o que ele era antes, considerou como lixo, para que somente Cristo fosse revelado nele.

Isso continua acontecendo hoje. Por isso, você que foi ferido na igreja, entenda: falharam com você. Mas isso não define o que a igreja é.

Existem pessoas no corpo de Cristo que Deus levantou para ouvir, compreender e conduzir você à cura — que vem por meio de Jesus.

Não deixe uma experiência negativa afastar você da comunhão. Ao mesmo tempo, nós, como líderes, precisamos amadurecer. Precisamos aprender a ouvir, a guardar confidências, a não expor as pessoas. Fofoca, divisão e falta de cuidado são coisas que destroem vidas.

Muitas pessoas deixaram de confiar porque foram expostas ou não foram ouvidas.

E isso precisa mudar. Nem tudo se resolve apenas entre você e Deus. Há coisas que Deus trata em nós através dos relacionamentos. Por isso existe o corpo de Cristo.

Mas isso exige sabedoria, paciência e amor.

Nosso papel não é simplesmente pregar e deixar as pessoas se virarem sozinhas. É caminhar junto, entender o tempo de cada um, saber quando corrigir e quando acolher. E talvez, às vezes, tudo o que alguém precisa ouvir é:

“Eu te entendo. Eu sei o que você está sentindo.”

Isso já pode iniciar um processo de cura.

Deus te abençoe 

Leonardo Lima Ribeiro 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Amadurecendo nosso chamado

Hoje vamos trabalhar dentro de um contexto muito real no corpo de Cristo. Quero que você participe: comente se concorda, se discorda, compar...