A Crise da Verdade, da Identidade e da Maturidade no Corpo de Cristo
A importância de caminhar com alguém
Existe uma verdade que aprendi ao longo dos anos de ministério: quem está com todo mundo, no final, não está com ninguém.
Muitas pessoas vivem tentando manter todas as portas abertas, agradar todos os grupos e nunca se comprometer profundamente com uma visão, uma missão ou uma comunidade. Porém, compromisso exige renúncia.
Jesus disse: "Ninguém pode servir a dois senhores." (Mateus 6:24)
Quando você se compromete com uma direção, inevitavelmente outras possibilidades deixam de ser prioridade. Quem tenta agradar a todos acaba desagradando a si mesmo e, muitas vezes, também aos outros.
Por isso é fundamental responder algumas perguntas:
Para onde Deus está me levando?
Qual é o propósito do meu ministério?
Qual é a visão que Deus me confiou?
O que desejo produzir na vida das pessoas que caminham comigo?
Muitos líderes não conseguem responder essas perguntas. Por isso vivem correndo atrás de fórmulas, congressos, cursos, mentorias e métodos prontos.
Mas visão não se compra. Visão não se copia. Visão não se importa de outro ministério. A verdadeira visão nasce da identidade.
A visão é proporcional à identidade
A visão que Deus dá a uma pessoa está diretamente ligada à identidade que Ele estabeleceu para ela.
Paulo escreve: "Porque somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas." (Efésios 2:10)
Antes mesmo de nascermos, Deus já havia determinado um propósito. "Porque aos que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho." (Romanos 8:29)
A visão não é algo que inventamos. Ela é algo que descobrimos. Quanto mais entendemos quem somos em Cristo, mais entendemos para que fomos chamados. Quando alguém tenta copiar a visão de outra pessoa sem compreender sua própria identidade, produz apenas uma imitação ministerial.
O resultado é frustração, desgaste e falta de frutos duradouros. O propósito da formação de líderes.. Nosso desejo não é apenas ver pessoas convertidas. Todo cristão genuíno deseja ver almas salvas. Porém, existe uma necessidade urgente na Igreja atual: formar líderes maduros.
Líderes que compreendam seu chamado. Líderes que conheçam sua identidade. Líderes que sejam eficientes e eficazes no propósito que Deus lhes confiou.
Paulo ensinou: "E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço." (Efésios 4:11-12)
O objetivo da liderança nunca foi produzir dependência.
O objetivo da liderança é produzir maturidade.
A mudança das guerras dentro da Igreja
Durante muito tempo, os conflitos entre os cristãos eram principalmente denominacionais. Era uma disputa entre igrejas. Entre tradições. Entre sistemas doutrinários. Cada grupo acreditava possuir a interpretação mais correta das Escrituras.
Com o passar dos anos, percebi algo preocupante: muitos irmãos passaram a defender sistemas teológicos com mais paixão do que defendem o próprio evangelho. O problema não está em possuir convicções. O problema está em transformar convicções em ídolos. Quando isso acontece, deixamos de servir à verdade para servir ao sistema.
A armadilha da superioridade espiritual
Lembro-me de conhecer um líder que acreditava que sua denominação possuía uma posição especial dentro do corpo de Cristo. Segundo sua visão, sua tradição teológica seria uma espécie de guardiã oficial da verdade. Embora talvez não fosse sua intenção, essa crença produzia um sentimento implícito de superioridade sobre outros irmãos. Esse fenômeno não é exclusivo de uma denominação. Ele aparece em praticamente todos os grupos. Alguns acreditam ser os únicos que possuem a doutrina correta.
Outros acreditam ser os únicos que experimentam verdadeiramente o Espírito Santo. Outros acreditam ser os únicos que compreenderam a graça.
Paulo combate exatamente essa mentalidade: "Porque quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido?" (1 Coríntios 4:7)
Toda superioridade espiritual é incompatível com a graça. A graça nos torna gratos, não arrogantes.
Reformados e neopentecostais: uma guerra de sistemas
Com o passar dos anos, observei uma grande polarização entre reformados e neopentecostais. Os reformados frequentemente acusam os neopentecostais de inventarem doutrinas sem fundamento bíblico. E muitas dessas críticas possuem fundamento legítimo.
Existem excessos. Existem manipulações. Existem práticas que realmente não encontram sustentação bíblica. Por outro lado, também existem interpretações dentro do ambiente reformado que muitas vezes são apresentadas como se fossem a única leitura possível da Escritura, quando na verdade carregam elementos filosóficos e culturais.
O problema é que ambos os lados podem cair na mesma armadilha: Confundir sua interpretação da verdade com a própria verdade.
O filtro cultural da interpretação bíblica
Nenhum ser humano lê a Bíblia de maneira totalmente neutra. Todos carregamos filtros culturais. A Bíblia foi escrita por autores orientais. Embora grande parte do Novo Testamento tenha sido escrita em grego, a mentalidade dos autores era profundamente judaica.
Jesus era judeu.
Os apóstolos eram judeus.
A cosmovisão bíblica é hebraica.
Por outro lado, nós somos herdeiros do pensamento ocidental, fortemente influenciado pela filosofia grega. E existe uma diferença fundamental entre essas duas formas de pensar.
O pensamento grego separa
A mentalidade grega busca dividir conceitos para analisá-los. Ela trabalha através da categorização, da lógica formal e das distinções.
Por isso surgem debates como:
Soberania de Deus ou livre-arbítrio?
Justiça ou misericórdia?
Fé ou obras?
Graça ou responsabilidade?
O pensamento ocidental frequentemente sente necessidade de escolher um lado.
O pensamento hebraico conecta
A mentalidade hebraica consegue sustentar tensões sem necessariamente eliminá-las. Ela compreende que duas verdades aparentemente opostas podem coexistir.
Por exemplo: Deus é justo. Mas Deus também é misericordioso. Deus é transcendente. Mas Deus também é próximo. Cristo é totalmente Deus. E totalmente homem. A Bíblia não tenta resolver todos os paradoxos. Muitas vezes ela os apresenta para serem contemplados.
Isaías declara: "A misericórdia triunfa sobre o juízo." (Tiago 2:13)
Mas também afirma: "O Senhor é Deus zeloso e vingador." (Naum 1:2)
Ambos são verdadeiros.
O perigo dos sistemas fechados
Quando transformamos uma parte da verdade na verdade completa, criamos sistemas rígidos. E sistemas rígidos geralmente produzem divisões.
Paulo advertiu: "Porque, em parte, conhecemos." (1 Coríntios 13:9)
Nenhum grupo possui compreensão total. Nenhuma denominação esgota a riqueza da revelação divina. Todos enxergamos parcialmente. Todos estamos aprendendo. Todos precisamos de humildade.
O efeito Dunning-Kruger e a arrogância espiritual
Existe um fenômeno estudado na psicologia chamado Efeito Dunning-Kruger.
Ele demonstra que pessoas com pouco conhecimento sobre determinado assunto frequentemente superestimam seu entendimento. Enquanto isso, pessoas que realmente estudam profundamente tendem a perceber a complexidade do tema e se tornam mais cautelosas. Isso possui uma aplicação espiritual impressionante.
O cristão imaturo costuma ter respostas para tudo. O cristão maduro aprende a fazer perguntas.
O imaturo fala com absoluta certeza sobre tudo. O maduro reconhece os limites da sua compreensão.
Provérbios já ensinava esse princípio milhares de anos antes da psicologia moderna:
"Tens visto um homem que é sábio aos seus próprios olhos? Maior esperança há para o tolo do que para ele." (Provérbios 26:12)
E Paulo complementa: "Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito não aprendeu ainda como convém saber." (1 Coríntios 8:2)
Quanto mais nos aproximamos da verdade, mais percebemos nossa dependência de Deus.
O caminho da maturidade
A maturidade cristã não consiste em vencer debates. Não consiste em provar que meu grupo está certo. Não consiste em acumular conhecimento teológico. A maturidade consiste em refletir Cristo.
Paulo declarou: "Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo." (Efésios 4:13)
A verdadeira maturidade produz: Humildade. Discernimento. Amor pela verdade. Respeito pelos irmãos. Capacidade de dialogar. Firmeza sem arrogância. Quanto mais maduros nos tornamos, menos defendemos placas e mais defendemos Cristo. E quanto mais conhecemos a Cristo, menos necessidade sentimos de provar que somos melhores que os outros.
A maturidade não nos torna donos da verdade. Ela nos torna servos da Verdade.
E a Verdade tem nome: Jesus Cristo. (João 14:6)
A diferença entre parecer saber e realmente saber. Uma das grandes armadilhas da nossa geração é a substituição da verdade pela aparência da verdade. Vivemos em uma cultura onde a percepção muitas vezes vale mais do que a realidade.
Nas redes sociais, especialmente em plataformas como Instagram, muitas pessoas aprenderam uma regra perigosa: "Não importa o quanto você sabe; importa o quanto você parece saber."
Infelizmente, a lógica da influência digital frequentemente recompensa mais a confiança aparente do que a profundidade real.
Nesse ambiente, autoridade passou a ser medida por: Número de seguidores. Alcance das publicações. Quantidade de visualizações. Engajamento. Capacidade de comunicação. Embora essas coisas tenham valor, elas não são provas de sabedoria, maturidade ou verdade.
Jesus alertou: "Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis." (Mateus 7:15-16)
Observe que Jesus não disse: "Pelos seguidores os conhecereis."
Nem disse: "Pela influência os conhecereis."
Nem: "Pela eloquência os conhecereis."
Ele disse: "Pelos frutos."
O Reino de Deus sempre avalia resultados espirituais antes de avaliar popularidade.
O paradoxo do verdadeiro conhecimento
O chamado Efeito Dunning-Kruger revela algo extremamente interessante. Quanto menos uma pessoa sabe sobre determinado assunto, maior tende a ser sua confiança. Por outro lado, quanto mais profundamente ela estuda, mais percebe a complexidade do tema.
Isso gera humildade. A pessoa madura percebe quantas variáveis ainda não compreendeu. Ela reconhece seus limites.
Ela aprende a dizer: "Eu ainda estou aprendendo."
Salomão escreveu: "O sábio ouvirá e crescerá em conhecimento." (Provérbios 1:5)
Paulo também declarou: "Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito não aprendeu ainda como convém saber." (1 Coríntios 8:2) O verdadeiro conhecimento produz humildade. O falso conhecimento produz arrogância. Por isso, muitas vezes quem fala com mais certeza não é quem sabe mais. É simplesmente quem ainda não percebeu a profundidade do assunto.
A cultura da imagem e o perigo para a Igreja
A cultura digital criou uma nova forma de autoridade. Antigamente, o reconhecimento vinha principalmente da convivência. As pessoas observavam caráter. Observavam serviço. Observavam perseverança. Observavam frutos. Hoje, muitas vezes, a autoridade é construída pela imagem. Isso cria uma enorme tentação para líderes cristãos. A tentação de investir mais na aparência da unção do que na presença de Deus. Mais na comunicação do que no caráter. Mais no posicionamento digital do que na transformação interior.
Paulo alertou Timóteo: "Tem aparência de piedade, mas negam-lhe o poder." (2 Timóteo 3:5)
A aparência nunca foi o objetivo do evangelho. O evangelho produz transformação.
O conflito entre coaches e líderes cristãos
Nos últimos anos surgiu uma nova tensão dentro do ambiente cristão. Antes os conflitos aconteciam principalmente entre denominações. Hoje eles também acontecem entre pastores e coaches. Muitos líderes enxergam o coaching como uma ameaça. Muitos coaches enxergam a igreja como atrasada.
Em vários casos, ambos estão errando.
Existem coaches que utilizam princípios bíblicos misturados com conceitos de autoajuda, meritocracia e desenvolvimento pessoal, sem perceber que algumas dessas ideias podem deslocar a dependência de Deus para a confiança excessiva no próprio esforço.
Por outro lado, existem líderes que atacam indiscriminadamente tudo aquilo que vem de fora do ambiente eclesiástico, sem discernimento. O problema não está necessariamente na ferramenta. O problema está no fundamento.
Uma ferramenta pode ser usada para servir ao Reino ou para substituir o Reino.
O perigo é justiça própria
A grande pergunta não é: "Isso funciona?"
A pergunta correta é: "Qual é a fonte disso?"
Porque existem coisas que funcionam naturalmente sem necessariamente produzirem vida espiritual.
Uma pessoa pode desenvolver: Disciplina. Organização. Liderança. Comunicação. Gestão financeira. E ainda assim não conhecer profundamente a Cristo. Os fariseus eram extremamente disciplinados.
Mas Jesus lhes disse: "Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim; contudo não quereis vir a mim para terdes vida." (João 5:39-40)
O centro do evangelho não é a performance. O centro do evangelho é Cristo. Toda mensagem que desloca a confiança de Cristo para a capacidade humana corre o risco de produzir justiça própria.
Paulo escreveu: "Tendo começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoando na carne?" (Gálatas 3:3)
O filtro através do qual lemos a Bíblia
Falamos que toda leitura passa por um filtro. Que ninguém lê a Bíblia de forma totalmente neutra.
Nós lemos através de: Nossa cultura. Nossa história. Nossas experiências. Nossas dores. Nossas expectativas. Nossa formação teológica.
Por isso duas pessoas podem ler o mesmo texto e chegar a conclusões diferentes. A questão não é apenas o que está escrito. A questão também é através de qual lente estamos interpretando. É por isso que a revelação do Espírito Santo é indispensável.
Paulo escreveu: "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente." (1 Coríntios 2:14)
Isso não significa abandonar o estudo. Significa reconhecer que estudo sem revelação produz apenas informação. E informação não é transformação.
O Homem Natural e a Incapacidade de Discernir as Coisas de Deus
Quando Paulo escreve em 1 Coríntios 2:14: "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente", ele está estabelecendo uma distinção fundamental entre duas formas de percepção da realidade: a percepção meramente humana e a percepção iluminada pelo Espírito Santo.
No texto grego, a expressão traduzida como "homem natural" é psychikos anthrōpos (ψυχικὸς ἄνθρωπος). O termo psychikos não descreve necessariamente uma pessoa imoral, ateia ou intelectualmente incapaz. Refere-se ao indivíduo que vive apenas no âmbito da alma humana, limitado aos recursos da razão, das emoções e dos sentidos naturais, sem a atuação transformadora e reveladora do Espírito de Deus. É alguém que interpreta a realidade exclusivamente a partir das capacidades humanas.
Paulo afirma que esse homem não "aceita" as coisas do Espírito. O verbo grego dechomai (δέχομαι) carrega a ideia de receber favoravelmente, acolher ou admitir algo como verdadeiro. A questão não é simplesmente falta de informação, mas incapacidade de receber e reconhecer a verdade espiritual em seu devido valor.
Por essa razão, as coisas de Deus lhe parecem "loucura". A palavra utilizada é mōria (μωρία), da qual deriva o termo "insensatez". Aos olhos da lógica puramente humana, a cruz parece fraqueza, a graça parece injustiça, a humildade parece derrota e a fé parece irracionalidade. O problema não está na mensagem divina, mas na limitação da perspectiva de quem a observa.
Paulo vai além ao dizer que o homem natural "não pode entendê-las". Aqui encontramos uma incapacidade que não é intelectual, mas espiritual. O verbo ginōskō (γινώσκω) envolve conhecimento obtido por experiência, percepção e compreensão profunda. O ser humano natural pode estudar a Bíblia academicamente, aprender teologia, memorizar doutrinas e compreender conceitos religiosos, mas sem a iluminação do Espírito Santo permanecerá incapaz de captar plenamente a realidade espiritual que está por trás dessas verdades.
A razão apresentada por Paulo é decisiva: "porque elas se discernem espiritualmente". O verbo anakrinō (ἀνακρίνω) significa examinar, avaliar, investigar cuidadosamente e chegar a uma conclusão correta. As verdades de Deus exigem um critério de avaliação que transcende a capacidade natural do homem. Assim como um cego de nascença não pode compreender plenamente as cores apenas por descrições verbais, o homem natural não consegue perceber a dimensão espiritual das coisas de Deus sem que o Espírito lhe conceda iluminação.
Portanto, a mensagem de Paulo não é uma rejeição da razão humana, mas o reconhecimento de seus limites. A mente humana é uma ferramenta extraordinária para analisar, organizar e comunicar a verdade, mas não é suficiente para produzi-la ou revelá-la. A revelação divina não nasce da inteligência humana; ela é recebida pela ação do Espírito Santo.
A grande lição deste texto é que o conhecimento de Deus não é resultado apenas de estudo, argumentação ou capacidade intelectual. Ele exige revelação. O homem pode conhecer informações sobre Deus pela razão, mas somente pelo Espírito pode conhecer o próprio Deus. O evangelho não é apenas uma verdade a ser analisada; é uma realidade a ser discernida espiritualmente. Por isso, toda compreensão genuína das Escrituras depende não apenas de olhos que leem e mentes que pensam, mas de um coração iluminado pelo Espírito Santo, que transforma a Palavra escrita em verdade viva dentro da alma humana.
A pergunta "Será que Deus me chamou?" não pode ser respondida apenas pelos critérios da lógica humana, das emoções ou das circunstâncias externas. É exatamente nesse ponto que a afirmação de Paulo em 1 Coríntios 2:14 se torna profundamente relevante: "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente."
Muitas pessoas tentam descobrir seu chamado apenas através da razão. Elas analisam talentos, oportunidades, desejos pessoais, aprovação das pessoas ou resultados visíveis. Embora esses elementos possam ter valor, nenhum deles é suficiente para revelar um chamado divino. O chamado de Deus pertence ao campo das coisas espirituais e, portanto, deve ser discernido espiritualmente.
O homem natural procura evidências externas para obter segurança. Ele pergunta: "Será que sou capaz?" "Será que tenho conhecimento suficiente?" "Será que as pessoas me aprovam?" "Será que vou dar certo?"
Mas o Espírito conduz a perguntas diferentes: "O que Deus está dizendo?" "Onde Deus está me direcionando?" "O que Ele está confirmando através da Sua Palavra?" "Como o Corpo de Cristo está discernindo essa vocação?"
A própria Bíblia mostra que os chamados de Deus frequentemente desafiam a lógica humana. Moisés acreditava não ter capacidade para falar. Jeremias dizia ser jovem demais. Gideão se considerava o menor de sua casa. Os discípulos eram homens simples da Galileia. Sob a ótica do homem natural, esses chamados pareciam improváveis; sob a ótica do Espírito, eram propósitos divinos.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas: "Será que Deus me chamou?", mas também: "Estou tentando discernir meu chamado pelos critérios da carne ou pelos critérios do Espírito?"
O chamado de Deus raramente é confirmado apenas por sentimentos passageiros. Ele é discernido através de uma combinação de elementos espirituais: a direção das Escrituras, a ação do Espírito Santo, o reconhecimento do Corpo de Cristo, os frutos produzidos ao longo do tempo e a paz que acompanha a obediência.
Existe ainda um perigo: tentar decidir o chamado apenas pela autopercepção. Em 1 Coríntios 2, Paulo ensina que o discernimento espiritual não nasce do homem, mas do Espírito de Deus. Isso significa que ninguém autentica a si mesmo. Na Bíblia, os chamados ministeriais eram reconhecidos e confirmados pela comunidade da fé. Até mesmo Paulo, que recebeu uma revelação direta de Cristo, posteriormente recebeu as "destras de comunhão" dos líderes da igreja, demonstrando que o chamado pessoal e a confirmação comunitária caminham juntos.
Assim, quando alguém pergunta: "Será que Deus me chamou?", a resposta não será encontrada apenas dentro de si mesmo, nem apenas na opinião das pessoas. Ela será encontrada na medida em que o Espírito Santo iluminar o coração, alinhar a vida com a Palavra de Deus e confirmar, através da Igreja e dos frutos produzidos, aquilo que Ele mesmo iniciou.
Em última análise, o chamado de Deus não é algo que o homem natural consegue descobrir sozinho. É uma realidade espiritual que precisa ser revelada, discernida e confirmada. E quanto mais alguém anda no Espírito, menos busca provas para convencer a si mesmo e mais aprende a reconhecer a voz daquele que o chamou. Afinal, o chamado não começa quando o homem decide servir a Deus; ele começa quando Deus fala, e o homem aprende a ouvir.
Oração em Línguas e a Revelação do Chamado
Se as coisas de Deus "se discernem espiritualmente" (1 Coríntios 2:14), então é natural concluir que a descoberta e a compreensão do chamado também dependem de meios espirituais de comunhão com Deus. Nesse contexto, a oração em línguas ocupa um lugar importante na experiência de muitos cristãos.
Paulo ensina: "Porque o que fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios." (1 Coríntios 14:2)
A palavra grega para "mistérios" é mystēria (μυστήρια), que se refere a verdades ocultas que somente Deus pode revelar. Quando Paulo afirma que aquele que ora em línguas fala mistérios a Deus, ele está descrevendo uma comunicação que ultrapassa as limitações da compreensão natural.
Mais adiante, Paulo escreve: "O que fala em outra língua edifica-se a si mesmo." (1 Coríntios 14:4)
O verbo grego oikodomeō significa "construir", "fortalecer", "erguer uma estrutura". A oração em línguas fortalece o homem interior, tornando-o mais sensível à direção do Espírito Santo.
Isso não significa que a oração em línguas revele automaticamente o chamado ou substitua o estudo das Escrituras, a maturidade espiritual e a confirmação da Igreja. Entretanto, ela pode criar um ambiente de comunhão profunda no qual o Espírito Santo ilumina áreas da vida que antes estavam obscuras.
Existe uma conexão interessante entre 1 Coríntios 2 e 1 Coríntios 14.
Em 1 Coríntios 2, Paulo afirma que as coisas de Deus são discernidas espiritualmente.
Em 1 Coríntios 14, ele ensina que quem ora em línguas está exercitando seu espírito em comunhão direta com Deus.
Assim, a oração em línguas pode ser compreendida como uma prática que fortalece a capacidade do crente de perceber a direção do Espírito. Não porque as línguas sejam uma espécie de mapa secreto do chamado, mas porque aproximam o coração daquele que chama.
Muitas vezes, o chamado não é revelado por uma única experiência extraordinária. Ele se torna claro ao longo de um relacionamento contínuo com Deus. Enquanto o espírito é fortalecido em oração, a mente é renovada pela Palavra e o caráter é moldado pela obediência, o propósito divino vai sendo progressivamente discernido.
Há também uma ligação importante com Romanos 8:26: "Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira."
Quando uma pessoa busca compreender seu chamado, frequentemente ela não sabe sequer o que pedir. Existem dúvidas, limitações e áreas desconhecidas. Nesse contexto, a oração inspirada pelo Espírito torna-se uma expressão de dependência daquele que conhece perfeitamente os planos de Deus.
Portanto, a oração em línguas não deve ser vista como uma técnica para descobrir o chamado, mas como um instrumento de comunhão que aumenta a sensibilidade espiritual. Quanto mais o crente aprende a permanecer na presença de Deus, mais ele se torna capaz de discernir aquilo que o homem natural não consegue compreender.
O chamado não é revelado primeiramente a quem busca uma função, mas a quem busca intimidade. E, muitas vezes, é no ambiente da adoração, da oração e da comunhão profunda com o Espírito Santo que Deus começa a tornar claros os caminhos que preparou desde antes da fundação do mundo.
Que o Senhor possa te fortalecer e te usar poderosamente para a Gloria Dele
Leonardo Lima Ribeiro

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