terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Quando o coração bloqueia o mover de Deus

Existe uma pergunta silenciosa que ronda muitas comunidades de fé:

“Por que o mover de Deus parece tão distante?”

Frequentemente a resposta é buscada em métodos, campanhas, líderes ou estratégias espirituais. Mas a Escritura aponta para um lugar bem mais íntimo e desconfortável: o coração humano.

Não é a ausência de dons que bloqueia o mover.

Não é a presença de fraquezas.

É aquilo que escolhemos esconder atrás de máscaras.

1. A hipocrisia impede o mover de Deus

Hipocrisia não é cair.

Hipocrisia é fingir que não caiu.

Na Bíblia, Jesus nunca tratou pecadores arrependidos com dureza. Prostitutas, publicanos, adúlteros e marginalizados encontraram nele acolhimento, direção e restauração. O confronto mais severo de Jesus foi reservado a um grupo específico: os religiosos hipócritas.

“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Mateus 15:8)

A hipocrisia cria um ambiente espiritual contaminado, porque sustenta uma realidade paralela: por fora, discurso; por dentro, negação. Onde há negação da verdade interior, o Espírito da Verdade não encontra espaço para fluir.

Deus não se move onde a aparência governa.

Ele se move onde há: verdade, quebrantamento, sinceridade

É por isso que o mover de Deus não é travado por fraquezas confessadas, mas por pecados bem maquiados. Máscaras bloqueiam mais do que falhas.

O problema nunca foi errar diante de Deus.

O problema é fingir diante d’Ele.

2. O escândalo sempre nasce no coração de quem não se entrega

Há uma frase dura, mas profundamente verdadeira:

o escândalo sempre está no coração de quem não deu nada.

Quem não se entrega, critica quem se entrega.

Quem não paga o preço, se escandaliza com o sacrifício do outro.

Quem não ama profundamente, julga quem ama de forma extravagante.

Esse princípio aparece de forma cristalina na cena de Maria derramando o nardo sobre Jesus (João 12). Judas se escandaliza. Seu discurso é socialmente correto, espiritualmente aceitável e aparentemente nobre: “Isso poderia ter sido dado aos pobres”. Mas o texto expõe a raiz:

“Ele disse isso não porque se importasse com os pobres, mas porque era ladrão.” (João 12:6)

O escândalo não nasceu do excesso de Maria, nasceu da escassez interior de Judas.

Quem vive no cálculo sempre se incomoda com quem vive na entrega. A extravagância revela o vazio de quem mede tudo, inclusive Deus.

O escândalo não denuncia exagero alheio.

Denuncia ausência de amor próprio no coração de quem observa.

3. A crítica revela aquilo que foi reprimido

Aqui entramos numa verdade que é bíblica e, ao mesmo tempo, profundamente alinhada à psicanálise:

O que mais criticamos nos outros costuma ser aquilo que reprimimos em nós mesmos.

Jesus já havia sinalizado isso: “Por que vês o argueiro no olho do teu irmão, mas não percebes a trave no teu próprio olho?” (Mateus 7:3)

A crítica funciona como um mecanismo de defesa. Ela desloca para fora aquilo que é doloroso encarar por dentro. O que não pôde ser vivido, expressado ou integrado no passado, reaparece como julgamento no presente.

Exemplos comuns: 

Critica quem se expressa → porque aprendeu a se calar

Critica quem prospera → porque foi ensinado a se limitar

Critica quem se entrega a Deus → porque teve medo de se render

A crítica, nesse sentido, não é zelo espiritual.

É ferida não curada tentando se proteger.

A crítica revela mais sobre quem critica do que sobre quem é criticado.

4. Um diagnóstico espiritual do coração

Quando juntamos essas três verdades, temos um diagnóstico claro:

Hipocrisia bloqueia o mover

Escândalo denuncia falta de entrega. Crítica expõe repressões internas

Deus não está à procura de perfeitos. Ele está à procura de verdadeiros.

“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado.” (Salmos 34:18)

Onde a verdade governa o coração, o mover de Deus não precisa ser forçado. Ele simplesmente acontece. Não como espetáculo, mas como vida. Não como barulho, mas como transformação.

O mover de Deus flui onde as máscaras caem, onde o amor vence o cálculo e onde a crítica dá lugar ao arrependimento.

Porque, no Reino, a verdade sempre precede a glória.

Protocolo: Pacto de Origem. Da máscara à verdade: (Cura da hipocrisia, do escândalo e da crítica)

ETAPA 1 — QUEBRA DA APARÊNCIA

Objetivo: expor a diferença entre imagem espiritual e realidade interior.

Princípio bíblico: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração.” (Salmos 139:23)

Você conduz o mentorado a responder, sem espiritualizar, três perguntas-chave:

Quem eu tento parecer diante das pessoas?

Quem eu sou quando ninguém está olhando?

O que eu escondo com medo de perder aceitação espiritual?

Aqui você ensina algo essencial:

Deus não unge personagens. Ele habita pessoas verdadeiras.

Diagnóstico: Onde existe medo de ser visto, já existe hipocrisia em gestação.

ETAPA 2 — CONFISSÃO SEM AUTOJUSTIFICAÇÃO

Objetivo: substituir negação por verdade.

Princípio bíblico: “Quem encobre os seus pecados não prospera, mas quem os confessa e deixa alcança misericórdia.” (Provérbios 28:13)

Aplicação na mentoria: Você orienta o mentorado a nomear o pecado, a ferida ou a incoerência sem explicar, sem culpar terceiros, sem discurso teológico.

Exemplo prático:

“Eu fiz isso porque fui ferido”

 “Eu pequei. Ponto.”

Ensine isso com clareza: Confissão não é explicação. É rendição.

O Espírito não flui onde ainda existe defesa do ego.

ETAPA 3 — RASTREAMENTO DO ESCÂNDALO

Objetivo: identificar onde a falta de entrega gerou julgamento.

Princípio bíblico: “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mateus 6:21)

Exercício na mentoria:

Peça para o mentorado listar: Pessoas, práticas ou expressões espirituais que mais o incomodam.

Depois pergunte: 

O que essa pessoa faz que eu não faço?

Onde estou economizando entrega?

O que eu chamo de “exagero” porque não quero pagar o preço?

O escândalo revela o ponto exato da minha resistência à entrega.

Como Judas, o discurso pode parecer nobre, mas o coração denuncia.

ETAPA 4 — DESARME DA CRÍTICA

Objetivo: curar repressões internas que se manifestam como julgamento.

Princípio bíblico: “Por que vês o argueiro no olho do teu irmão…?” (Mateus 7:3)

Ferramenta prática:

Para cada crítica recorrente, o mentorado responde:

O que em mim foi reprimido?

Onde aprendi que isso era errado, perigoso ou impossível?

Quem me ensinou a me conter?

Aqui você faz a ponte espiritual + emocional: A crítica não nasce do zelo, nasce da dor não integrada.

Cura gera silêncio interior. Ferida gera julgamento.

ETAPA 5 — ENTREGA CONSCIENTE

Objetivo: substituir cálculo por amor.

Princípio bíblico: “Apresentai os vossos corpos como sacrifício vivo.” (Romanos 12:1)

Ação prática: O mentorado escolhe uma área específica onde vai se entregar sem negociar:

Tempo, Generosidade, Serviço, Perdão, Vida devocional.

Não tudo. Uma área real.

Ensinamento central: Deus não pede perfeição total, pede rendição verdadeira.

ETAPA 6 — ALINHAMENTO COM A VERDADE

Objetivo: sustentar o mover sem retornar às máscaras.

Princípio bíblico: “Se andarmos na luz, como Ele na luz está…” (1 João 1:7)

Disciplina dentro da mentoria:

Autoexame semanal (1 Coríntios 11:28)

Confissão contínua

Correção sem vitimismo

Vulnerabilidade responsável

O mover de Deus não se mantém com fogo, se mantém com verdade praticada.

DECLARAÇÃO FINAL (PARA USO NA MENTORIA)

“Deus não se afasta porque falhamos.

Ele se afasta quando fingimos.

Onde a verdade governa, a glória encontra caminho.”

Deus te abençoe 

Leonardo Lima Ribeiro 

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